Quem foi H. P. Lovecraft e como ele influenciou a cultura POP?

Compartilhe:

Lovecraft é aquele sobrenome que você já viu em algum lugar, mesmo sem nunca ter lido uma linha do autor. Ele aparece em trailers de jogos, em sinopses de filmes, em análises de terror cósmico e até em discussões sobre racismo na literatura.

Para muita gente, Howard Phillips Lovecraft é quase uma entidade: o “pai do horror cósmico”, o cara que trocou monstros de porão por deuses ancestrais gigantescos e indiferentes à humanidade. Porém, por trás dos tentáculos, da névoa e o “conhecimento proibido”, existiu um sujeito real, cheio de problemas, preconceitos e inseguranças.

Vamos te contar quem foi Lovecraft, como a vida estranha dele moldou sua obra e de que forma esse universo de insanidade inspirou escritores, cineastas e desenvolvedores de jogos até hoje.

A vida estranha de H. P. Lovecraft

A vida estranha de H. P. Lovecraft
Lovecraft aos 25 anos, em 1915

Howard Phillips Lovecraft nasceu em 1890, em Providence, Rhode Island, nos Estados Unidos. A infância misturou doença, solidão e uma família em queda. O pai foi internado em um sanatório e morreu anos depois, provavelmente devido a sífilis, enquanto a mãe e as tias criavam o garoto em um ambiente superprotetor e carregado de ansiedade.

Sarah (mãe), Howard e Winfield (pai) Lovecraft em 1892
Sarah (mãe), Howard e Winfield (pai) Lovecraft em 1892

Lovecraft era uma criança frágil, que vivia cercada de livros. Em vez de brincar na rua, mergulhava em astronomia, poesia e literatura gótica.

Por outro lado, a saúde mental dele nunca foi exatamente sólida. Crises de depressão, ataques de nervos e dificuldade para se adaptar socialmente o acompanharam pela vida toda. Uma sensação constante de deslocamento – de ser um estranho no próprio mundo.

Ninguém poderia imaginar que, mais tarde isso tudo viraria combustível direto para o horror cósmico que conhecemos.

Vida adulta

A vida adulta não trouxe estabilidade. Lovecraft casou-se com Sonia Greene, judia e empresária, e chegou a morar um tempo em Nova York. A experiência virou um desastre emocional e financeiro.

Ele odiava a sensação de estar cercado por imigrantes, se sentia esmagado pelo estilo de vida da cidade e, aos poucos, mergulhou em depressão e miséria.

Fotos raras de Lovecraft e sua esposa Sonia Greene
Fotos raras de Lovecraft e sua esposa Sonia Greene

Quando o dinheiro acabou e o casamento desandou, ele voltou sozinho para Providence, em 1926, acolhido novamente pelas tias em uma casa vitoriana em Barnes Street.

Retorno as origens

O retorno a cidade natal marcou o início da fase mais produtiva da carreira. Entre caminhadas por bairros antigos e viagens baratas pela costa leste, Lovecraft escreveu alguns de seus trabalhos mais importantes, como The Call of Cthulhu, At the Mountains of Madness e The Shadow over Innsmouth.

Ao mesmo tempo, a realidade batia forte. Ele ganhava pouco, revisava textos de outros autores para sobreviver e via a própria saúde se deteriorar.

Durante a Grande Depressão, abandonou o conservadorismo juvenil, aproximou-se de ideias socialistas e, paradoxalmente, ficou ainda mais pobre.

Nos últimos anos de vida, Lovecraft morou em quartos cada vez mais modestos e comia mal, enquanto suportava dores constantes. Além disso, seu medo de médicos adiou o diagnóstico até o limite. Apenas em 1937 ele descobriu que tinha câncer no intestino, agravado por desnutrição.

Internado em Providence, ele continuou registrando os sintomas em um diário, mesmo com as mãos trêmulas. Entretanto, chegou um momento em que não conseguiu mais segurar a caneta. Morreu em 15 de março de 1937, aos 46 anos, praticamente desconhecido do grande público, e foi enterrado no cemitério de Swan Point.

O túmulo de Lovecraft
O túmulo de Lovecraft

Décadas depois, fãs ergueriam uma lápide com a frase que resumiria sua relação com a cidade: “I AM PROVIDENCE”.

A descoberta

Um ponto importante sobre Lovecraft é que ele nunca escreveu um romance longo no formato tradicional que muita gente associa aos autores de hoje. Em vez disso, sua carreira literária se construiu sobre contos, novelas e ensaios, quase sempre publicados em revistas pulp, como a clássica Weird Tales.

Na época, ele não era famoso e recebia pouco pelo que escrevia. Ainda assim, seu trabalho circulava em nichos de leitores fanáticos por terror e ficção estranha. Além disso, seu nome era conhecido principalmente dentro de um grupo restrito de escritores com quem trocava cartas e ideias.

Somente décadas depois da sua morte, com reedições, estudos críticos e a influência escancarada em outros autores, o mundo começou a perceber o peso da sua obra. Dessa forma, Lovecraft deixou de ser apenas um nome perdido em revistas baratas e se transformou em um verdadeiro clássico cult, referência obrigatória para quem aprecia horror.

O horror cósmico e os Mitos de Cthulhu

Lovecraft Cthulhu - Arte de Andrée Wallin
Cthulhu – Arte de Andrée Wallin

Se você gosta de jogos e filmes de terror, a ideia de “horror cósmico” provavelmente já cruzou seu caminho.

Ainda que Lovecraft não tenha inventado o medo do desconhecido, ele criou um tipo específico de terror: aquele em que o ser humano descobre que não é especial, não é o centro de nada e vive à mercê de forças indiferentes e impossíveis de compreender.

Em histórias como O Chamado de Cthulhu, Nas Montanhas da Loucura e A Sombra em Innsmouth, ele criou um universo compartilhado de deuses antigos, cultos secretos e cidades decadentes.

H.P. Lovecraft - Miskatonic Edition - Darksidebooks
H.P. Lovecraft – Miskatonic Edition – Darksidebooks

Esse conjunto de obras ficou conhecido como “Mitos de Cthulhu”. Outras pessoas, depois, expandiram essa mitologia, mas o coração do conceito já estava ali: a mente humana quebra quando percebe a insignificância da própria existência.

Veja bem, não se trata de um horror de sustos banais. Em vez disso, a tensão cresce no texto através de diários, relatos fragmentados, cartas e investigações que levam a descobertas cada vez mais perturbadoras.

O monstro maior, no fim, não é o tentáculo em si, e sim a verdade que ele representa. “Uma forma de horror indescritível”

O legado sombrio e controverso de Lovecraft

Não dá para falar de Lovecraft hoje sem encarar um ponto delicado: ele era profundamente racista. E não só dentro do “padrão da época”.

Muitos pesquisadores como autor do livro “Horror as Racism in H. P. Lovecraft: White Fragility in the Weird Tales” – John L. Steadman – apontam que o autor era extremado até para os padrões do começo do século XX.

Os preconceitos aparecem em cartas, poemas e até em alguns contos. Ele tinha horror a imigrantes, negros, judeus e praticamente qualquer pessoa que fugisse da ideia de “branquitude anglo-saxã”.

Essa visão contaminou parte da obra, em especial quando o “outro” é descrito como degenerado, impuro ou ameaçador. Estudos recentes mostram como o medo do “estrangeiro” se mistura ao medo do desconhecido, criando uma espécie de horror metafísico com um núcleo ideológico tóxico.

Por outro lado, o debate atual não tenta “apagar” Lovecraft, e sim contextualizar. Muitos autores e críticos defendem que é possível reconhecer o valor literário e ao mesmo tempo expor e criticar o racismo presente na obra. Esse desconforto, inclusive, inspirou releituras modernas que subvertem ou confrontam diretamente o legado do escritor.

Lovecraft e a literatura de terror moderna

Stephen King

Mesmo com todos os problemas, o impacto de Lovecraft na literatura é gigantesco. Hoje, ele costuma ser chamado de “pai do horror moderno” e influenciou diretamente nomes como Stephen King, Neil Gaiman, Robert Bloch e Caitlín R. Kiernan.

Para se ter ideia, Stephen King já citou Lovecraft como uma de suas maiores influências, principalmente na construção de cidades amaldiçoadas e na ideia de que o mal pode ser antigo, quase geológico, dormindo sob a superfície do cotidiano.

Neil Gaiman (autor de Coraline) levou essa herança para o fantástico contemporâneo, misturando mitologia, fantasia urbana e ecos lovecraftianos em contos e romances.

Kiernan (A Menina Submersa), por sua vez, trabalha o horror cósmico com um olhar mais psicológico, corporal e, muitas vezes, sob perspectivas que Lovecraft jamais teria dado a seus personagens.

Victor LaValle

Além disso, surgiram obras que dialogam de forma crítica com o autor. Victor LaValle, por exemplo, escreveu The Ballad of Black Tom, uma releitura de um conto de Lovecraft, mas a partir do ponto de vista de um personagem negro, que expõe a violência racial implícita na história original. LaValle tem uma relação complexa com o escritor H.P. Lovecraft, sendo ele um admirador que também critica abertamente o racismo em sua obra.

Em resumo, Lovecraft se tornou uma espécie de “gramática” para falar de terror cósmico. Mesmo quando o nome não aparece, as ideias, as nuances de personalidade e todo o mais estão lá. A ciência que abre portas demais, a sanidade que se desfaz, a sensação de que o universo é vasto, hostil e completamente indiferente ao nosso drama.

Lovecraft no cinema

Jeffrey Combs em Necronomicon - O Livro Proibido dos Mortos (1993)
Jeffrey Combs em Necronomicon – O Livro Proibido dos Mortos (1993)

Do clássico cult às grandes telas, adaptar Lovecraft sempre foi um desafio. Como filmar algo “indescritível”? Como mostrar o “indizível” sem estragar a magia? Apesar disso, essa dificuldade virou terreno fértil para cineastas com imaginação visual forte.

Diretores como Stuart Gordon abraçaram a veia mais grotesca e sanguinolenta do autor em filmes como Re-Animator e From Beyond, ambos adaptações livres de contos lovecraftianos.

Essas obras misturam horror, humor negro e exagero, criando um tipo de cinema cult que ainda inspira produções independentes.

Por outro lado, alguns filmes não adaptam diretamente os textos, mas respiram a mesma atmosfera. Alien e O Enigma de Outro Mundo (The Thing) colocam um grupo isolado diante de uma presença alienígena que reescreve as regras da realidade.

A criatura não é só um monstro: é uma força estranha demais para a mente humana processar.

Mais recentemente, Color Out of Space, de Richard Stanley, trouxe uma adaptação moderna de A Cor que Caiu do Espaço, com Nicolas Cage mergulhando em um surto progressivo à medida que uma entidade de outro mundo contamina uma fazenda.

Há ainda o eterno projeto de Guillermo del Toro de adaptar Nas Montanhas da Loucura, prova de que o fascínio por Lovecraft continua vivo em Hollywood. Aliás, não só em Hollywood…

Lovecraft nos videogames

Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth
Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth –
Headfirst Productions

Se existe uma mídia perfeita para o horror cósmico, provavelmente são os videogames. Nele, você não só assiste à perda de sanidade de um personagem. Você participa dela. Vários jogos de terror exploram diretamente o universo de Lovecraft.

Call of Cthulhu: Dark Corners of the Earth marcou meu primeiro contato direto com o nome indizível “Cthulhu”. O jogo lançado em 2005 mistura tiro em primeira pessoa com elementos de investigação. Além disso, apresenta um sistema de sanidade que distorce a visão do jogador conforme a situação se torna cada vez mais absurda.

Mais recente, Call of Cthulhu (2018) apostou em uma abordagem mais narrativa, focada na paranoia e no sentimento de que nada é confiável. Temos SCORN um jogo é fortemente inspirado pela cultura Lovecraftiniana.

Além disso, jogos como Eternal Darkness: Sanity’s Requiem e Amnesia: The Dark Descent não usam diretamente os Mitos de Cthulhu, mas trabalham com a mesma lógica: quanto mais o personagem testemunha o impossível, mais o jogo quebra seu psicológico, engana o jogador e brinca com a percepção de realidade.

 Bloodborne - Fromsoft

Na era moderna, Bloodborne virou um dos exemplos máximos de Lovecraft em forma de game. O título começa com um clima de terror gótico clássico e, aos poucos, revela um horror cósmico sobre deuses anciãos, experimentos com sangue e uma cidade corrompida por forças inimagináveis. O próprio DLC, com a vila pesqueira, faz referência direta ao conto A Sombra em Innsmouth.

E, por ultimo, outro destaque recente é Dredge, um jogo indie de pesca que se transforma em pesadelo marítimo conforme você explora águas cada vez mais bizarras e encontra criaturas que parecem ter saído das páginas de Lovecraft. A graça, nesse caso, está no contraste: um gameplay aparentemente simples que esconde uma espiral de estranheza.

Por que Lovecraft ainda assombra nossa cultura?

Você provavelmente nunca vai ver Cthulhu de verdade. Mesmo assim, a sensação de insignificância diante de algo enorme, distante e incontrolável é bem familiar.

Lovecraft ainda assombra nossa cultura

Hoje, a humanidade lida com crise climática, inteligência artificial, pandemias e colapsos econômicos e social. São forças que parecem abstratas, gigantescas e indiferentes à nossa pequena vida diária. Se a gente parar pra analisar, o horror cósmico conversa muito bem com esse clima.

Lovecraft oferece uma linguagem para representar esse medo. Seus deuses são metáforas exageradas para tudo aquilo que a gente não controla. Ao mesmo tempo, o debate em torno do racismo dele mostra outra coisa importante: até os “pais” de grandes gêneros podem carregar ideias nocivas que precisam ser discutidas, confrontadas e transformadas.

Autores contemporâneos, diretoras, roteiristas e desenvolvedores pegam essa herança, filtram, criticam e criam algo novo. Alguns preferem homenagear. Outros preferem subverter.

Porém, quase todos partem do mesmo ponto: a sensação de que, quando olhamos fundo demais para o abismo, ele não só olha de volta. Ele revela o quanto somos pequenos.

No fim, talvez seja por isso que Lovecraft continua vivo na cultura pop. Ele nos lembra de que o verdadeiro terror não está em um monstro atrás da porta, e sim na possibilidade de que a porta se abra para um universo que nunca foi feito para nós.

Se esse mergulho no universo de Lovecraft te deixou com a cabeça cheia de tentáculos e perguntas, compartilhe! E, se você quiser continuar explorando histórias que desafiam a sanidade, salva essa página nos favoritos e fica de olho nas próximas matérias.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Veja também:

Nós usamos cookies e outras tecnologias, conforme nossa Política de Privacidade, para você ter a melhor experiência ao usar o nosso site. Ao continuar navegando, você concorda com essas condições.