Remake de Prince of Persia: The Sands of Time foi cancelado junto com mais 5 projetos – O que está acontecendo com a Ubisoft?
Quando Prince of Persia: The Sands of Time chegou em 2003, ele não apenas redefiniu a franquia com gráficos em 3D incríveis. Ele ajudou a moldar a linguagem moderna dos jogos de ação em terceira pessoa no Playstation 2.
Quem aí se lembra? Parkour fluido, narrativa integrada à jogabilidade, combate acrobático e, sobretudo, a mecânica de voltar no tempo. Era mais do que um jogo. Era uma assinatura criativa.
Por isso, quando a Ubisoft anunciou o Remake de Prince of Persia: The Sands of Time, em 2020, a expectativa foi imediata. O retorno de uma lenda parecia muito bem vindo no meio da enxurrada de remakes e remasters que se seguiu depois.
Contudo, o que veio foi uma longa sequência de decisões erradas, casos constrangedores, trocas de estúdio e adiamentos que transformaram o projeto em um fantasma.
Até que, em 2026, a empresa confirmou o previsível: mais projetos oficialmente cancelados. Dentre eles, o Remake de Prince of Persia: The Sands of Time.
O cancelamento não é apenas o fim de um projeto. Analisando o quadro geral, ele simboliza algo maior. Ele expõe como uma gigante da indústria parece ter perdido a capacidade de cuidar do próprio legado.
Uma franquia abandonada à própria sombra
Para quem não sabe, a franquia surgiu pela primeira vez em 1989 e foi um marco como um avanço na qualidade de animação vista em jogos eletrônicos.
Em 2003, Prince of Persia: The Sands of Time não foi só um sucesso comercial. Ele influenciou gerações inteiras de jogos nas gerações seguintes.
De Assassin’s Creed a Uncharted, todos beberam da mesma fonte. Ironicamente, a própria Ubisoft construiu um império em cima do DNA que nasceu em Prince of Persia. E ainda assim, a franquia original foi sendo deixada de lado.
Após o lançamento de The Forgotten Sands, em 2010, a franquia Prince of Persia foi desaparecendo em meio a lançamentos fracos. Enquanto Assassin’s Creed se tornava o bolo de cenoura anual, Prince of Persia virava fantasma.
Um remake de Prince of Persia: The Sands of Time, anunciado em 2020, surgia como uma chance de redenção. Não era apenas um produto requentado – era uma chance de reconciliação com um passado de brilhantismo da Ubisoft.
Mas o projeto já nasceu ferido. O primeiro trailer causou estranhamento imediato. Visualmente datado, sem identidade clara, parecia mais um remaster mal-acabado do que um remake.
A reação negativa foi tão forte que a Ubisoft recuou. Em 2022, a Ubisoft tirou o remake das mãos de seus estúdios indianos (Ubisoft Pune), trazendo o projeto para uma de suas principais divisões, a Ubisoft Montréal – a responsável pela trilogia original no PlayStation 2.
Another update from Prince of Persia: Sands of Time Remake dev team: pic.twitter.com/O6OOmYXhOD— Prince of Persia™ (@princeofpersia) February 5, 2021
Passado algum tempo. O remake virou lenda urbana. Até 2024, quando lançaram um teaser anunciando lançamento para 2026. No entanto, aqui estamos nós, pasmos com o cancelamento repentino. Mas, por que tudo isso?
Reestruturações, cancelamentos e uma empresa a deriva

O cancelamento do Remake de Prince of Persia não aconteceu do nada. Pesquisando um pouco, a gente descobre que ele faz parte de uma onda maior de cortes dentro da Ubisoft.
Projetos encerrados, equipes dissolvidas, jogos adiados indefinidamente. Além disso, a onda de polemicas envolvendo a Ubisoft. Essa instabilidade constante revela uma empresa em busca de si mesma.
A Ubisoft já foi sinônimo de ousadia e qualidade. Hoje, ela parece prisioneira de planilhas financeira. Cada projeto precisa justificar seu custo antes mesmo de justificar sua existência criativa.
Em um cenário assim, franquias “adormecidas” viram riscos. E riscos, em corporações gigantes, viram alvos de engavetamento.
O remake passou anos consumindo recursos sem apresentar retorno visível. Em uma empresa pressionada por investidores, isso é imperdoável. O problema é que, ao agir assim, a Ubisoft reforça a própria crise de identidade. Ela deixa claro que só há espaço para marcas que garantem lucro previsível.
Clássicos não entram nessa equação.
O peso financeiro de reviver o passado

Remakes modernos são caros. Muito caros.
Eles exigem reconstrução total de assets, animações, sistemas, dublagem, trilha, iluminação, física. Além disso, carregam um fardo extra: expectativa. Um jogo novo pode errar. Um clássico refeito não pode.
O Remake de Prince of Persia: The Sands of Time precisava agradar dois públicos ao mesmo tempo. Os veteranos, que carregam memória afetiva, e uma nova geração acostumada a padrões técnicos altíssimos. Isso encarece tudo. Cada decisão errada vira mais um risco reputacional e entra para uma conta que já está no vermelho.
Para uma empresa que opera em escala industrial, o retorno se torna incerto. E, quando o lucro não é garantido, o projeto perde prioridade.
Nesse cenário, é mais fácil investir em mais um Assassin’s Creed, mais um Far Cry, mais um mundo aberto genérico. São produtos com público estabelecido, ciclo previsível e menor risco financeiro.
Portanto, apostar no passado, então, vira um luxo.
A saturação de lançamentos requentados

A indústria vive uma febre de remakes e Remasters. Se você comprou um Playstation 5 ou um Xbox Series S|X, para entrar de cara na 9ª geração, sabe do que estamos falando.
Alguns relançamentos são brilhantes, como Resident Evil 2 Remake. Ao mesmo tempo, outros parecem existir apenas para preencher calendário e tentar “ordenhar” dinheiro dos fãs mais fieis.
O problema é que a nostalgia, quando industrializada, perde força. Clássicos passam a ser tratados como “IPs requentadas”. Sendo assim, o valor cultural vira ativo financeiro.
Nesse contexto, o risco não é apenas falhar tecnicamente. É transformar algo que foi único em mais um produto genérico. Um Prince of Persia sem identidade. Um jogo que carregaria o nome, mas não o DNA.
Talvez a Ubisoft tenha percebido isso tarde demais. Ou então tenha entendido que o remake jamais alcançaria o que o lançamento original de The Sands of Time representou. E, diante dessa probabilidade, optou por nem tentar.
O problema é que essa decisão reforça a sensação de abandono. Não houve um “não sabemos fazer isso direito”. Houve apenas silêncio. Ou seja, ninguém diz nada ao público e depois, cancela o projeto.
Quando uma lenda vira planilha
O cancelamento do Remake de Prince of Persia: The Sands of Time não mata apenas um jogo. Ele mata a esperança de ver uma franquia histórica tratada com respeito.
Mais do que isso, ele revela um modelo de indústria que enxerga o passado com olhos famintos. Onde o legado não tem valor se não gerar retorno garantido e imediato. Onde clássicos precisam competir com serviços, passes de temporada e mundos abertos intermináveis.
Originalmente The Sands of Time nasceu em uma época em que jogos AAA ainda podiam ser autorais dentro de grandes estúdios. Hoje, esse espaço parece pertencer apenas aos sonhadores e apaixonados do mercado de jogos Indies.
Por fim, o Remake de Prince of Persia foi um fracasso. Ele nunca teve a chance. E talvez essa seja a forma mais triste de flopar.


















