Crise da memória RAM. Um titulo que parece sensacionalismo da grande mídia, até você abrir qualquer loja e ver o mesmo kit memórias custando “quase o dobro” do que custava meses atrás.
Como a IA impactou o mercado de hardware, encareceu PCs e consoles e vai afetar o futuro do PS6?
Em 2025 e 2026, a RAM virou um indicador estranho da indústria. Já percebeu que, quando ela sobe, quase todo o resto sobe junto? Ainda assim, a parte mais inquietante não está no carrinho de compras. Ela está na linha de produção e no desenvolvimento de lançamentos futuros.
Onde tudo começa

A história começa com uma troca de prioridades que soa técnica, mas funciona como um roteiro de investigação. As três gigantes do DRAM – Samsung, SK hynix e Micron – hoje, controlam quase todo o mercado global. Ao mesmo tempo, a IA generativa explodiu em data centers, GPUs e aceleradores. Sendo asism, o que era “memória de PC gamer” virou um ingrediente disputado por empresas que compram em volumes absurdos.
Só que a indústria de memória não cresce como uma plantação. Você não “planta” mais RAM do dia para a noite. Você abre fábricas, expande clean rooms e ajusta nós de fabricação com prazos longos. Além disso, a fabricação de memórias avançadas exige mais etapas e mais cuidado. Por isso, o mercado respondeu do jeito mais pragmático possível: ele perseguiu margem.
Aqui entra a metáfora que explica tudo: a “canibalização de wafers”. Um wafer é o “disco” de silício do qual saem vários chips. Quando o fabricante decide usar aquele wafer para HBM (High Bandwidth Memory), ele não está só criando um produto premium. Ele está dizendo “esse silício não vai virar DDR5 comum”. Em outras palavras, a HBM não apenas cresce. Ela ocupa o espaço físico e industrial que antes alimentava a RAM do consumidor comum.
E existe um detalhe ainda mais cruel: Memórias HBM costumam ser mais “silício-intensiva” e exigem empacotamento avançado. Assim, elas puxam não só wafers, mas também capacidade de embalagem e testes. Enquanto isso, a DDR5, a DDR4 e a LPDDR competem por migalhas de prioridade. Resultado: oferta apertada, contratos mais agressivos, e preços subindo com um humor quase automático.
O Impacto no mundo gamers

Quando a RAM encarece, os PC gamers sentem primeiro, porque eles compram o componente na prateleira. No entanto, os consoles também entram nessa equação, só que de um jeito mais gradual. Um console moderno não usa “qualquer memória”. Ele depende de muita memória, rápida e estável, e geralmente com um desenho sob medida para aquela arquitetura.
Os consoles de 9ª geração como, PlayStation 5 e os Xbox Series, já mostraram a direção do setor: largura de banda alta, integração com armazenamento rápido e uma sinergia absurda entre CPU, GPU e memória. Além disso, os jogos atuais passam menos tempo “carregando” e mais tempo “streamando” dados. Por isso, memória e I/O viraram parte do mesmo motor.
Agora vamos colocar essa lógica no mercado futuro. O PlayStation 6 precisa entregar o salto geracional que o público espera. Entretanto, a expectativa de “verdadeira nova geração” não se sustenta só com teraflops. Ela exige memória suficiente para mundos mais densos, IA de NPCs mais sofisticada, ray tracing mais pesado e texturas ainda maiores. Logo, se a crise da memória RAM pressiona custos na origem, ela também pressiona a conta final do console.
O trilema
Daí surge um trilema que ninguém quer admitir. Se a memória custa mais, o fabricante tem três saídas, e nenhuma delas é bonita:
- Lançar mais caro: um console acima de US$ 600 vira produto de luxo, não de massa. Além disso, ele vira munição para críticas, mesmo que “faça sentido” na planilha de custos.
- Lançar mais tarde: esperar oferta estabilizar pode segurar custos. Porém, atraso cobra seu preço em mercado, marketing e janela de jogos.
- Cortar ambição: reduzir memória, ou escolher uma solução menos agressiva, salva o BOM (bill of materials). Ainda assim, corta o fôlego técnico e frustra o público mais hypado.
E aqui está o ponto que liga tudo aos games do dia a dia. Quando memória fica cara, estúdios também mudam comportamento ao desenvolver seus jogos. Eles passam a mirar configurações “humildes” para o mercado. Dessa forma, a geração fica estagnada tecnologicamente, e otimização vira prioridade não por virtude, mas por sobrevivência. Ao mesmo tempo, o consumidor entra naquele limbo: comprar agora, pagar caro, ou esperar e arriscar ficar de fora dos lançamentos.
As Gambiarras Tech
Crise cria duas coisas: oportunidade e desespero. No PC, ela também cria um terceiro elemento, que é bem a cara do brasileiro: gambiarra.
A primeira gambiarra que voltou a circular parece improvável, mas existe: adaptadores para usar SODIMM (memória de notebook) em placas-mãe de desktop. A ideia é simples. Em alguns momentos, SODIMM aparece mais barata, ou, pelo menos, mais disponível, do que DIMM tradicional. Então, alguns usuários começaram a compra um adaptador e tentar driblar a crise da memória RAM.
Funciona? Até que sim…
Entretanto, a história tem pegadinhas. SODIMM pode ter perfis e compatibilidades diferentes. Além disso, estabilidade em DDR5 já exige cuidado, e cada camada extra no caminho complica sinal e timing. Assim, o que parece “economia” pode virar dor de cabeça. Ainda assim, em tempos de Crise é quando o público entusiasta mais testa limites e possibilidades.
A segunda saída é o mercado de usados, que renasce como um brechó de sobrevivência. Kits DDR4 voltam a ser disputados, porque “pelo menos funcionam”. Além disso, builds AM4 e Intel de gerações anteriores ganham novo apelo, já que aceitam DDR4 e reduzem custo total. Consequentemente, a crise empurra muita gente para um upgrade mais conservador, ou para um “meio termo” inteligente.
A terceira saída é software. Quando falta RAM, o sistema tenta compensar com disco. Então, ressurgem guias e tutoriais sobre memória virtual, SWAP e até zRAM. No Linux, por exemplo, o zRAM comprime dados na própria RAM para “criar espaço” de forma eficiente. No Windows, ajustes de pagefile voltam a ser preocupação.
Até que ponto isso ajuda?
Isso tudo salva o game nosso de cada dia? Depende. Para jogos, swap em SSD ajuda em travamentos pontuais, mas não substitui RAM de verdade. Além disso, quando o sistema começa a trocar demais, ele cria stutter, e o jogador sente no input dos controles – principalmente em mouse e teclado.
Ainda assim, para multitarefa, streaming e mods pesados, essas estratégias viram o colete salva-vidas possível.
E existe um detalhe quase irônico: a era da IA vende “computação mágica”, mas ela empurra o consumidor para truques antigos. No fim, a crise da memória RAM faz o público redescobrir limitações que ele achava enterradas nos tempos de Windows XP.
Geopolítica e Economia

Toda crise de hardware é, no fundo, uma crise de geografia. A produção de memória depende de uma cadeia concentrada na Ásia, com peso enorme da Coreia do Sul e do ecossistema industrial de Taiwan. Então, qualquer ruído regional vira um ruído global. Além disso, tensões comerciais e políticas afetam confiança, contratos e prazos.
A concentração traz eficiência, mas cobra vulnerabilidade. Quando três empresas dominam DRAM, o mercado reage como um corredor estreito. Se elas mudam a alocação para HBM, o resto do mundo sente. E elas mudaram, porque o mercado de IA paga mais, compra mais e exige mais.
Do lado econômico, a inflação do componente não se comporta de forma igual em todos os lugares. Em mercados emergentes, a pancada costuma chegar mais forte.
Realidade do Brasil
Aqui no Brasil, por exemplo, o preço final mistura dólar, imposto cavalares, frete, margem e, muitas vezes, estoque limitadíssimo. Assim, quando a cadeia aperta, o varejo repassa rápido. Em picos de escassez, não é raro ver kits de RAM dobrando, ou até triplicando, dependendo do modelo, da capacidade e do timing.
Além disso, o Brasil sofre com o “atraso logístico” do hype. Repare que, quando o exterior já migrou para um novo preço, o mercado local ainda está queimando estoque antigo. Depois, ele atualiza de uma vez. Consequentemente, o consumidor sente como se alguém tivesse puxado o tapete em uma semana.
E tem um efeito colateral pouco falado que é o fato das crises mudarem o comportamento do comprador. Ele vira caçador de oportunidade, passa a acompanhar promoções em grupos de whatsapp como se fosse lançamento de jogo. E ele compra quando “aparece” o cupom. Dessa forma, a crise da memória RAM transforma um componente básico em item de alta procura e altamente inflacionado.
Quando isso vai se normalizar?

Existe saída? Sim, mas ela não é imediata. A indústria já anunciou investimentos pesados para ampliar capacidade, inclusive com novas fábricas e expansão em vários países. Além disso, a corrida por memórias HBM virou um “superciclo” que incentiva mais produção, mais embalagem avançada e novos contratos.
O problema é o relógio. Fábrica complexas não surgem rapidamente. Para se ter uma ideia, muitas expansões relevantes miram o fim da década, com marcos importantes por volta de 2028. Portanto, a normalização depende de duas forças andando juntas: mais oferta física e um equilíbrio de demanda entre IA, servidores e consumidor.
Ainda assim, a pergunta final é a que realmente importa para quem é gamer. Vamos voltar a ter “hardware barato”? Ou a IA mudou o custo da computação pessoal e dos consoles para sempre?
Visão de futuro

Nossa leitura é um pouco dura, mas honesta. O hardware pode ficar mais acessível em ciclos, porque o mercado sempre exagera e depois corrige. – basta observarmos o histórico da febre da mineração de bitcoin em 2017 e 2021. Entretanto, a IA introduziu uma demanda estrutural por memória avançada que não parece temporária. Além disso, HBM não é moda. Ela virou infraestrutura. Logo, mesmo que a DDR5 estabilize, ela pode estabilizar em um patamar novo.
E isso afeta o futuro dos games de um jeito silencioso. Se memória custa mais, o salto geracional vem mais caro. O salto vindo mais caro, console fica mais difícil de vender. Se console vende menos, o ecossistema muda.
Sendo assim, a crise da memória RAM não é só síndrome do PC Gamer ou qualquer drama do tipo. Ela é um sinal de que a computação entrou em uma era em que data centers puxam o mercado, e o consumidor paga a conta.
No fim, talvez a pergunta não seja “quando a RAM volta ao normal”. Talvez a pergunta seja: qual é o novo normal, quando o mundo inteiro decidiu treinar máquinas que dependem de tanta memória como se fosse oxigênio?

















