Fort Solis começa com uma promessa forte. O jogo se vende como um thriller de ficção científica em Marte, com cara de minissérie da Netflix, elenco de peso e Unreal Engine 5 prometendo gráficos ao limite do póssivel.
- Desenvolvedores: Fallen Leaf, Black Drakkar Games
- Lançamento: 22 de agosto de 2023
- Plataformas: PlayStation 5, Microsoft Windows, macOS
- Gênero: Ficçao Científica, Walking Simulator, Terceira Pessoa
O projeto foi concebido desde o início como uma espécie de minissérie interativa – não por acaso, a campanha se divide em quatro capítulos de cerca de uma hora, bem no espírito de “maratonar no fim de semana”.
O problema aparece quando você termina a campanha em poucas horas, larga o controle no sofá e percebe que, enquanto filme interativo, ele até funciona, mas como jogo ele não vai muito bem.
A estrutura lembra muito aqueles “walking simulator” clássicos da década de 2010, só que com menos liberdade, menos interatividade e uma história que parece importante apenas até os créditos subirem.
Ainda assim, vale separar as coisas. Visualmente, o jogo impressiona. O elenco entrega atuações competentes. A ambientação marciana segura boa parte da experiência. Porém, quando nos aprofundamos em outras áreas, a conversa toma outro rumo. Será que Fort Solis vale a pena?
A história de Fort Solis: ótima premissa, impacto quase nulo

No papel, a trama de Fort Solis parece pronta para fisgar qualquer fã de sci-fi claustrofóbica.
Você controla Jack Leary, um engenheiro que atende a um chamado de emergência em uma base de mineração em Marte, já no fim do expediente. Lá, ele tenta entender por que ninguém responde, o que deu errado e onde todos se meteram.
A estrutura em quatro capítulos existe para imitar uma minissérie de streaming, com começo, meio e fim bem definidos. Os próprios desenvolvedores já descrevem o jogo como algo que você “maratona” em uma sessão de 4 a 6 horas, dependendo do quanto explora gravações, computadores e recados espalhados pelo cenário.
Na prática, a narrativa até começa bem. Existe um mistério interessante, algumas tensões corporativas e sinais de que algo saiu muito errado naquele complexo marciano.

Você sente que está entrando em uma trama sobre ambição, negligência e consequências em um ambiente hostil, bem alinhada com os temas que inspiraram o projeto. Não é coincidência que Fort Solis fale tanto de vulnerabilidade e isolamento: o jogo foi concebido em plena pandemia, e o roteiro carrega esse clima de mundo hostil o tempo todo.
Só que, conforme os capítulos avançam, a história deixa de crescer. As reviravoltas chegam sem grande impacto, muitos diálogos soam funcionais e o arco emocional não engrena.
Mesmo sendo um projeto independente, Fort Solis traz um elenco de peso que você costuma ver em produções AAA, com nomes como Roger Clark (Arthur Morgan) e Troy Baker (Joel de The Last of Us). Entretanto, o roteiro não encontra aquele grande momento de catarse.
Quando os créditos sobem, você entende o que aconteceu em Fort Solis, mas não sente vontade de revisitar aquele enredo ou indicá-lo como “obrigatório” para quem ama ficção científica pesada.
Atmosfera e direção de arte: o melhor que Fort Solis tem a oferecer

Se a história é morna, a atmosfera segura as pontas. Fort Solis é, sem exagero, um dos jogos indie que melhor usam a Unreal Engine 5 para criar um ambiente físico, palpável, quase tátil.
,A base marciana parece um lugar real, vivida por pessoas reais, e não apenas um cenário de videogame bem polido.
Os corredores apertados, a iluminação baixa, o som distante de maquinário e o vento batendo do lado de fora criam um clima constante de inquietação. Além disso, a direção de arte aposta em um futuro próximo e “pé no chão”. Você enxerga cabos, sujeira, ferrugem e improviso por todo lado, o que ajuda bastante na suspensão de descrença.
Visualmente, dá para perceber traços de Dead Space e até da série The Expanse, influência que o próprio diretor já admitiu sem muita cerimônia.
Os rostos dos personagens também impressionam. O jogo foi pensado para exibir expressões faciais detalhadas e mocap e animações bem trabalhado (geradas com Audio2Face), com closes que lembram produções de orçamento bem maior. Nesse sentido, Fort Solis realmente parece uma vitrine técnica para UE5.
A câmera sem cortes, que acompanha o personagem o tempo todo, reforça essa sensação cinematográfica constante.
O áudio acompanha bem esse cuidado visual. Trilhas discretas, muitos ruídos ambientais e uso inteligente de som 3D constroem a tensão, mesmo quando nada acontece de fato. Em vários momentos, o que mantém você engajado não é o que a história diz, mas como a base responde ao simples ato de caminhar por ela.
Infelizmente, essa mesma atmosfera forte acaba realçando um contraste incômodo: o cenário pede um jogo mais profundo, enquanto a jogabilidade oferece pouquíssimas possibilidades. Chega a ser frustrante nesse ponto.
Gameplay no o limite entre “experiência narrativa” e tédio

Fort Solis se apresenta como um thriller psicológico, mas, em termos de mecânica, ele vive na fronteira entre “jogo narrativo” e passeio guiado. Você anda, examina objetos, ouve logs de áudio, assiste a vídeos e, ocasionalmente, encara um quick time event surpresa que não exige muita precisão.
Não existe combate, nem sistemas mais complexos de exploração ou quebra-cabeças. Você raramente sente que está resolvendo algo. Em vez disso, você apenas acompanha o que já está decidido pelo roteiro.
Mesmo com o uso do veículo rover e com a divisão da base em setores interligados, o jogo não cria um senso real de progressão espacial. Aliás, a gente nem controla o veículo. A cena aparece em trailers e em screenshots da capa do jogo, porém é só um momento cinematográfico mesmo.
Além disso, o ritmo de movimento de Jack é lento. Em um jogo focado em caminhar e observar, a velocidade do personagem importa muito.

Em Fort Solis, cada ida de um ponto ao outro parece alongar artificialmente a duração de uma história que já é curta. A sensação de “esticado” aparece rápido, sobretudo quando você percebe que a jogabilidade não vai mudar até o final.
Os QTEs chegam como tentativa de acentuar momentos de tensão, só que não acrescentam profundidade. Eles funcionam mais como checagens de atenção do que como mecânicas criativas. Quando você erra, não faz muita diferença, o que reduz o senso de risco.
Existe até uma intenção de não “encher linguiça”: o próprio diretor disse que não queria passar de cinco horas de jogo para que os sistemas não se tornassem cansativos. O problema é que, na prática, a experiência consegue ser cansativa mesmo assim.
Em resumo, o gameplay de Fort Solis até sustenta a ideia de “jogo como série interativa”, mas quase nunca aproveita o fato de ser um videogame. Você participa pouco das decisões que importam. A maior parte da experiência acontece diante de você, não através de você.
Performance e parte técnica

Quando Fort Solis apareceu, muita gente enxergou o jogo como um dos primeiros testes “reais” da Unreal Engine 5 em um projeto comercial menor.
Não vou mentir, visualmente, o resultado impressiona. Porém, do lado da performance, a experiência é mais um caso de que tecnologia em fase inicial é produto inacabado.
No PlayStation 5, onde jogamos, ocorremam quedas constantes de taxa de quadros. Em teoria, o jogo mira 30 fps no modo qualidade e 60 no modo performance. Mas, na prática, há momentos em que framerate despenca pra menos de 30 fps, o que quebra parte da sensação de fluidez que o estilo cinematográfico tenta construir.

No PC, a situação varia muito conforme o hardware. Na Steam, alguns jogadores com máquinas muito fortes relatam desempenho estável, enquanto outros falam sobre stutter, quedas bruscas e até travamentos em rigs que rodam jogos mais pesados sem problemas.
Isso casa com um problema mais amplo da atual geração de jogos em Unreal Engine 5. O próprio Tim Sweeney, CEO da Epic, já admitiu que muitos projetos sofrem não por culpa direta da engine, mas por processos de desenvolvimento que deixam a otimização para muito tarde.
No caso de Fort Solis, o resultado final passa a sensação de produto bonito, porém mal calibrado. Em um jogo focado em imersão, instabilidade incomoda muito.
Quando a cena depende de sutileza, uma queda brusca de FPS ou um shimmering agressivo no cenário gera percepção imediata de que aquilo é um jogo mal otimizado.
Pra quem é Fort Solis?

Em termos de duração, Fort Solis fica no intervalo clássico de um filme estendido. A maioria dos jogadores termina a campanha entre 3 e 6 horas, dependendo do nível de exploração. Não é um problema por si só. Jogos curtos funcionam bem quando entregam impacto, foco e identidade.
O dilema, no entanto, aparece quando você compara o que o jogo oferece com o preço que ele costuma cobrar. Em muitos mercados, Fort Solis entrou na faixa de “indie premium”, com valor semelhante ao de experiências bem mais rejogáveis.
Em um cenário onde o público pesquisa antes de comprar e pesa cada hora de jogo, isso conta bastante.
Além disso, a pouca variedade de mecânicas e o ritmo lento de movimentação fazem essas poucas horas parecerem intermináveis. Certos trechos são arrastados, mesmo com a campanha curta. Outros momentos passam rápido demais, sem tempo para a tensão crescer.
Quando você junta todos esses fatores, o custo-benefício fica difícil de defender para o público em geral. O jogo pode interessar a quem ama experiências narrativas ultra focadas, não liga para gameplay limitado e quer, acima de tudo, apreciar uma boa atmosfera sci-fi com ótimos atores.
Por outro lado, se você espera algum nível de profundidade mecânica, performance minimamente sólida e uma história que grude na memória, Fort Solis é caro. Mesmo em promoção, ele compete com uma quantidade enorme de jogos curtos que entregam mais impacto por minuto.

DICA: Se você gosta de caminhar devagar por cenários bonitos, prestar atenção em detalhes ambientais e ver boas atuações em um contexto de ficção científica melancólica, o jogo consegue entregar algo válido. Para quem é assinante da Amazon Prime, o jogo está sendo distribuído na plataforma Amazon Luna. (Disponível até 14 de jan. de 2026)
Veredito: Fort Solis vale o seu fim de semana?

Fort Solis não é um desastre, mas também não é o novo grande nome dos thrillers sci-fi interativos. Ele vive em um meio-termo estranho. Visualmente, entrega muito para um projeto desse porte. Em termos de atmosfera, fica entre os pontos fortes da safra recente de jogos em Marte.
Ao mesmo tempo, a história não aproveita todo o potencial da premissa, o gameplay encosta no limite do tédio e a performance, em vez de sumir no fundo, aparece demais. Para um público que pesquisa antes de abrir a carteira e valoriza tanto custo-benefício quanto experiências marcantes, isso pesa muito.
E você, encara Fort Solis nessa viagem curta para Marte ou guarda seu dinheiro para um thriller mais marcante? Conta aí nos comentários e manda este texto para aquele amigo que vive caçando “jogos de fim de semana”.



















