Ciência revela como jogos dos anos 90 influenciaram a mentalidade da geração millennial

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Jogos dos anos 90 não eram apenas CDs e cartuchos coloridos e locadora de sexta-feira – eles ajudaram a esculpir a cabeça de toda uma geração.

Hoje, psicólogos, pedagogos e pesquisadores discutem se aquele jeito “cru” de projetar games moldou a mentalidade millennial de um jeito diferente do que os jogos atuais fazem com a geração Z. A ciência ainda não dá uma sentença final, mas já oferece pistas bem interessantes.

Ao mesmo tempo, o ambiente digital em volta mudou radicalmente. Em vez de campanhas finitas, passwords rabiscados em papel e game over definitivo, vivemos num universo de notificações, passes de batalha, eventos sazonais e progressão infinita.

Entender essa mudança ajuda a explicar por que tantos millennials sentem que “cresceram em outro planeta” quando olham para como as crianças jogam hoje.

Faz sentido para você? Continue conosco até o final!

O que a ciência diz sobre videogames e atenção

O que a ciência diz sobre videogames e atenção

Antes de qualquer coisa, vale ponderar que: não existe um único “estudo definitivo” dizendo que jogos dos anos 90 são “bons” e jogos modernos são “ruins”. O que existe é um conjunto de evidências sobre como diferentes formas de jogar afetam atenção, memória e autocontrole.

Alguns estudos com crianças mostram que quando o uso de videogames passa para o campo do vício – aquela situação em que a criança não consegue parar, sacrifica sono, escola e convívio – a atenção e as habilidades de aprendizagem sofrem.

Por exemplo, nesse estudo, crianças com comportamento de dependência em jogos tendem a apresentar mais problemas de foco, memória e desempenho acadêmico do que aquelas que jogam de forma moderada.

Em paralelo, matérias recentes de veículos como a Newsweek ouviram terapeutas e conselheiros que cresceram com jogos dos anos 90 e hoje atendem crianças imersas em jogos online sempre ativos. Eles descrevem uma diferença clara: nos anos 90, muitos jogos exigiam foco prolongado, tolerância à frustração e repetição.

Já boa parte dos jogos atuais opera em uma “economia de atenção”, com recompensas rápidas, notificações constantes e ranking o tempo todo.

Além disso, algumas publicações têm viralizado nas redes sociais (“psicólogos explica por que crianças dos anos 90 pensam diferente da Gen Z”) juntam essas peças e defendem que os jogos da infância ajudaram a “programar” estilos cognitivos.

A ideia não é absurda, se pararmos para analisar. De fato, brincar sempre influenciou o desenvolvimento do cérebro infantil. Mas o texto exagera quando fala como se fosse um veredito científico fechado. Então, é importante não levarmos como verdade absoluta.

Como os jogos dos anos 90 treinavam a cabeça dos millennials

Como os jogos dos anos 90 treinavam a cabeça dos millennials

Para entender o peso disso tudo, vale lembrar como era a experiência típica com jogos dos anos 90. Você tinha pouquíssimos jogos, muitas vezes alugados. Quando ganhava um cartucho ou CD de PlayStation, passava meses explorando cada possibilidade daquela experiência.

Além disso, não existia patch de correção, modo foto ou atualização de conteúdo mensal. Você decorava falas dos personagens, movimento dos inimigos e se tornava um especialista naquele jogo.

A estrutura de gamedesign era um tanto diferente de hoje. Por exemplo, jogos de plataforma, RPGs e arcades de consoles giravam em torno de fases finitas e dificuldade crescente.

Se você errasse demais, o game over mandava de volta para o menu principal. “Vidas” e saves limitados forçavam o jogador a repetir trechos inteiros, decorar jogadas, encontrar padrões e rotas alternativas. O cérebro aprendia a aguentar frustração e a insistir no mesmo obstáculo por muito tempo. Em outras palavras, aprendizagem por tentativa e erro.

Além disso, a maioria desses jogos quase não tinha tutorial. O manual vinha em papel, quando vinha.

Você precisava testar botões, fuçar menus, falar com NPCs sem marcação no mapa. Isso estimulava exploração, memorização, tentativa e erro e aquele tipo de curiosidade paciente que hoje compete com a pressa do Google e do YouTube.

Não dá para dizer que isso formou uma geração de “super-humanos da atenção”, mas faz sentido pensar que essa rotina de repetir, decorar e insistir deixou muitos millennials mais acostumados a desafios longos, com recompensas bem espaçadas no tempo.

Como o gamedesign moderno mudou a relação com o foco

Como o gamedesign moderno mudou a relação com o foco

Já a geração que cresceu com jogos conectados encontrou um cenário quase oposto. Em vez de game over definitivo, temos checkpoints abundantes e auto-save a cada esquina.

Em vez de dois ou três jogos por ano, existem catálogos gigantes, “free-to-play”, promoções semanais e dezenas de títulos disputando o mesmo cérebro cansado.

Os próprios jogos dos anos 2000 e 2010 começaram a migrar para um modelo de serviço. Temporadas, skins, eventos por tempo limitado e passes de batalha empurram o jogador de volta o tempo todo.

Cada login rende alguma recompensa: moeda virtual, XP, loot box, missão diária. O foco sai do “quero terminar esse jogo” e vai para “não posso perder a recompensa de hoje”.

A nível cognitivo, isso cria outro tipo de treino: A dopamina barata.

Em vez de sessões longas tentando a mesma fase, o jogador alterna entre checar desafios, olhar notificações, responder amigos e gerenciar múltiplos sistemas de recompensa. Assim, o cérebro aprende a buscar estímulos rápidos, em sequência, e a abandonar mais rápido qualquer coisa que pareça lenta demais.

De novo, isso não significa que jogos modernos “destroem atenção”. Jogos competitivos exigem leitura rápida de cenário, tomada de decisão sob pressão e trabalho coordenado de equipe. No entanto, a combinação entre design de retenção, notificações do celular e redes sociais cria uma enxurrada de estímulos que favorece a impaciência.

E o que isso significa para os pais da Geração Z

Quando alguém da geração millennial diz “parece que as crianças de hoje não têm paciência para nada”, ele está sentindo na pele esse choque de gamedesign. Ele treinou a cabeça na era do jogos com foco em campanha; os filhos crescem na era do passe de batalha e jogos infinitos. São dois ambientes cognitivos distintos.

Para pais preocupados, a chave não é demonizar jogos modernos, mas prestar atenção em dois pontos:

  • Primeiro, diferenciar uso intenso de comportamento viciante – aquela situação em que o jogo passa por cima de sono, escola e vida social.
  • Segundo, equilibrar o tipo de experiência oferecida, alternando jogos rápidos com títulos que valorizem jornada, história e desafio progressivo. Em outras palavras, jogos com começo, meio e, principalmente, fim.

Para gamers nostálgicos – retrogamers, vale também um pouco de autocrítica. A mesma indústria que hoje abusa de retenção já explorava dificuldade injusta em fliperamas para comer ficha. A diferença é que, agora, a coleta de dados e o gamedesign voltado a engajamento deixaram tudo mais eficiente – e, portanto, mais perigoso para quem não tem um filtro crítico.

No fim das contas, pensar sobre jogos dos anos 90 e jogos modernos é pensar sobre como administramos nosso foco/atenção. Se entendemos que cada formato de jogo “treina” o cérebro de um jeito, conseguimos fazer escolhas mais conscientes – tanto como gamers quanto como pais e educadores.

Referências para leitura adicional

Provavelmente esse artigo deve ter levantado mais dúvida. Sendo assim, separamos algumas leituras complementares que valem muito a pena:

  • Matéria recente sobre como jogos dos anos 90 podem ter sido mais saudáveis para o cérebro das crianças do que muitos games atuais focados em retenção. Newsweek
  • Artigo de divulgação “Why 90s Kids Think Differently Than Gen Z”, que popularizou a tese de que os jogos da infância ajudaram a moldar estilos cognitivos diferentes entre gerações. PSYCHOLOGY ZINE
  • Pesquisa em periódicos científicos que investigam a relação entre vício em videogames, atenção, memória e desempenho escolar em crianças. Acta Médica Portuguesa

E você, que jogo treinou sua cabeça – e que mundo quer para a próxima geração? Compartilhe nossa publicação e vamos trocar uma ideia aqui nos comentários.

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