A trilha sonora de DOOM: The Dark Ages – Como é DOOM sem Mick Gordon?

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A trilha sonora de Doom The Dark Ages nos faz perceber algo meio desconfortável: durante quase uma década, Mick Gordon virou parte da identidade de DOOM. Para muita gente, guitarras de nove cordas, sintetizadores esmagados e ruído industrial simplesmente passaram a soar como DOOM.

Então, quando The Dark Ages apareceu sem Gordon, a pergunta era inevitável. Ainda dá para ouvir cinco segundos da música e pensar imediatamente em DOOM?

A resposta curta é sim. Porém, talvez essa seja a parte menos interessante da história.

Porque The Dark Ages não tenta esconder a ausência de Mick Gordon. A Finishing Move parece ter entendido que imitar BFG Division seria a maneira mais rápida de criar uma cópia sem alma e gerar hate. Em vez disso, tentou descobrir que som combinaria com este novo Doom Slayer.

O resultado é familiar, pesado e brutal. Mas é outro tipo de brutalidade.

Entenda como a trilha sonora de DOOM: The Dark Ages encontrou uma nova identidade musical sem Mick Gordon e por que ainda funciona, mesmo soando tão diferente.

Mick Gordon não fez apenas uma trilha sonora de Doom

Mick Gordon - Compositor da trilha sonora de DOOM (2016) e Doom Eternal
Mick Gordon – Compositor da trilha sonora de DOOM (2016) e Doom Eternal

Existe uma simplificação curiosa quando falamos da música de DOOM moderno. Muita gente resume tudo a “guitarra pesada”. Só que isso ignora o que tornava Gordon diferente.

Quando começou a trabalhar em DOOM 2016, a própria id Software pediu que ele evitasse metal. A preocupação era compreensível. Colocar guitarras pesadas em um jogo sobre matar demônios poderia facilmente virar uma caricatura bem “clichêzona” dos anos 1990.

Gordon começou, então, pelo caminho oposto.

Durante meses, trabalhou com sintetizadores, ruídos e processamento analógico. Aos poucos, inevitavelmente introduziu guitarras. Em determinado momento, misturou uma guitarra de nove cordas com a motosserra do DOOM original.

Gordon começou, então, pelo caminho oposto.

Isso explica por que BFG Division, Rip & Tear e Hellwalker soam tão peculiares. Não ouvimos simplesmente uma banda de metal durante Glory Kills.

Ouvimos algo entre música, máquina e ruído.

Talvez essa seja a verdadeira assinatura de Mick Gordon. A guitarra é importante, claro. Porém, por baixo dela existe uma arquitetura industrial que faz a música parecer produzida dentro das próprias instalações da UAC.

O resultado combinava perfeitamente com DOOM 2016. Depois, Doom Eternal ampliou essa linguagem até transformá-la em um espetáculo a parte.

E apesar de grande sucesso, foi logo a seguir que tudo desandou.

A separação que mudaria a trilha sonora de DOOM novamente

A separação que tornou The Dark Ages inevitavelmente diferente

A relação entre Mick Gordon e a id Software se deteriorou rapidamente e terminou de forma pública e amarga. Em 2020, após problemas com o álbum oficial de DOOM Eternal, Marty Stratton publicou uma explicação no Reddit.

Na época, o produtor e diretor atribuiu boa parte dos problemas de produção e prazo ao compositor. Dois anos depois, Gordon respondeu com sua própria versão dos acontecimentos.

Em um longo relato, acompanhado de documentos e mensagens, o músico jogou a merda no ventilador… digo, apresentou uma narrativa bastante diferente. Gordon alegou problemas de gestão, atrasos contratuais, trabalho não remunerado e uso de material ainda inacabado no lançamento.

A Bethesda, por outro lado, rejeitou essas acusações. A empresa afirmou que Gordon apresentou uma narrativa unilateral e disse possuir documentação capaz de sustentar sua própria posição.

Para quem acompanhava tudo de fora, entretanto, a disputa nunca chegou a uma resolução pública definitiva. Ainda assim, uma coisa ficou clara: aquela parceria havia terminado.

Por isso, quando a id Software anunciou a Finishing Move como responsável pela trilha de The Dark Ages, a mudança carregava um peso enorme. Afinal, quatro músicos entravam em um espaço que os fãs ainda associavam automaticamente a outra pessoa.

O compositor Brian Lee White resumiu bem a situação: parecia uma tarefa impossível. E, sendo justo, era mesmo.

Em vez de uma Ferrari, um tanque de guerra

Finishing Move - Alex Klingle, Brian Trifon, Brian Lee White e Jay Wiltzen
Finishing Move – Alex Klingle, Brian Trifon, Brian Lee White e Jay Wiltzen

A solução encontrada pela Finishing Move foi acompanhar a mudança do próprio jogo.

DOOM Eternal transformava o Slayer quase em um projétil. Dash, gancho, barras horizontais e arenas verticais mantinham tudo em velocidade absurda.

The Dark Ages muda essa lógica.

Hugo Martin comparou Eternal a uma Ferrari. Já o novo Slayer deveria lembrar um tanque Sherman: menos acrobacia, mais peso, impacto e domínio territorial.

A música precisava acompanhar essa rusticidade.

trilha sonora de Doom The Dark Ages

Por isso, a trilha sonora de Doom The Dark Ages trabalha com grooves mais deliberados e espaços maiores entre os ataques sonoros. A ideia não é fazer a música parecer mais lenta por falta de energia. Ela precisa parecer pesadona.

É a diferença entre uma motosserra girando a dez mil RPM e uma muralha avançando na sua direção.

A Finishing Move chamou sua abordagem de uma espécie de “orquestra de rock”. Além das guitarras, entram coro, instrumentos orquestrais e elementos associados ao universo medieval.

Entre os instrumentos aparecem tagelharpa, balalaika, mandolim, cello, contrabaixo e enormes tambores de pele animal.

No papel, poderia dar muito errado.

Misturar fantasia medieval com heavy metal

Misturar fantasia medieval com heavy metal poderia escorregar facilmente para aquela estética de trailer com vikings genéricos que permeou a cultura pop nos ultimos cinco anos. No entanto, a equipe percebeu esse risco.

A intenção nunca foi criar “música medieval com guitarra”. Os instrumentos antigos entram como textura, “sujeira” e peso.

O metal também mudou. A trilha passeia por thrash, deathcore, doom metal e referências ao black metal sueco, com mais espaço para riffs arrastados e breakdowns.

Ouça mentalmente a diferença: Gordon frequentemente fazia DOOM parecer uma máquina industrial enlouquecendo. A Finishing Move queria fazer The Dark Ages soar como um exército infernal marchando.

Parece uma diferença pequena? Definitivamente, não é!

O que realmente sentimos falta?

DOOM Eternal: O Coro de Heavy Metal de Mick Gordon
DOOM Eternal: O Coro de Heavy Metal de Mick Gordon

Aqui entra a parte mais complicada.

Se você colocar faixas como Unchained Predator, Infernal Chasm ou Between Hex and Flame durante uma batalha, dificilmente alguém vai dizer que aquilo não combina com DOOM.

A agressividade, os riffs e o senso de poder continuam lá.

Então por que alguns fãs ainda sentem que falta alguma coisa?

Talvez porque Mick Gordon não tenha criado apenas uma estética. Ele criou um vocabulário sonoro.

Veja bem, o grave sintético, as distorções eletrônicas e os timbres de máquinas defeituosas davam personalidade instantânea às faixas. Além disso, Gordon tratava guitarra quase como matéria-prima para sound design. Em vez de simplesmente gravar um riff pesado, ele deformava o som até encontrar algo diferente.

Isso tornava sua música reconhecível fora do jogo.

Você podia ouvir BFG Division fora do jogo e reconhecer aquela identidade imediatamente. Não precisava existir um Cacodemon na tela para a música funcionar.

Por outro lado, a Finishing Move seguiu outro caminho.

Seu trabalho parece mais interessado em reforçar o mundo de The Dark Ages. Os espaços são maiores, a ambientação é medieval e o Slayer funciona como uma força de guerra.

Consequentemente, a música se espalha mais pelo cenário.

Isso também explica os momentos atmosféricos. The Dark Ages possui exploração e arenas enormes. Manter tudo permanentemente no “volume onze” destruiria o contraste. Ou seja, fadiga Sensorial.

Curiosamente, essa escolha aproxima a música novamente da função clássica de uma trilha sonora. E talvez esse seja justamente o motivo de parte do público estranhar.

Mick Gordon conseguiu algo raro: em vários momentos, a música deixava de acompanhar DOOM e parecia disputar protagonismo com ele.

Sem tentar substituir seu antecessor

Confira os Riffs mais Brutais da trilha sonora de Doom The Dark Ages

Existe outro detalhe importante nessa história. A Finishing Move sabia onde estava pisando.

Os compositores reconheceram o peso de substituir alguém associado a duas trilhas tão icônicas. Mesmo assim, procuraram outra identidade. – Sendo racional, isso provavelmente salvou The Dark Ages.

Tentar reproduzir os mesmos truques de Gordon seria uma armadilha. O público perceberia a imitação imediatamente e qualquer comparação seria ainda mais cruel.

Em vez disso, a nova trilha conversa mais com o design do jogo em sí.

O Doom Slayer de 2016 parecia um animal solto dentro de uma instalação industrial. Em Eternal, virou quase um atleta sobre-humano atravessando arenas em alta velocidade.

Já em The Dark Ages, ele parece uma arma de cerco.

A trilha sonora acompanha exatamente essa transformação.

Não por acaso, a Finishing Move descreveu o ritmo como algo semelhante a um exército marchando. Há uma sensação de avanço inevitável. Menos frenesi, mais massa.

Isso não significa que a sombra de Gordon desapareceu. Provavelmente ela provavelmente nunca vai desaparecer.

DOOM 2016 fez algo que poucos jogos conseguem fazer: estabeleceu uma associação quase instantânea entre personagem, gameplay e música. Quando pensamos no Slayer moderno, ouvimos aquela guitarra dentro da cabeça.

Mas franquias também precisam sobreviver aos artistas que ajudaram a redefini-las.

E aqui The Dark Ages encontra uma resposta interessante.

Afinal, existe trilha sonora de DOOM decente sem Mick Gordon?

Existe. Só não soa exatamente como o DOOM que aprendemos a reconhecer na última década.

E talvez seja melhor assim.

A trilha sonora de Doom The Dark Ages mantém guitarras gigantes, bateria esmagadora e energia suficiente para transformar uma batalha em show de metal.

Porém, sua verdadeira identidade aparece quando ela para de tentar competir com a memória de Mick Gordon.

A Finishing Move troca parte daquele ruído industrial por algo mais ancestral. Troca velocidade por peso. Troca a sensação de triturador descontrolado pela marcha de uma guerra impossível.

Particularmente, não acho que isso apague o que Gordon fez. Na verdade, acontece o contrário.

The Dark Ages deixa ainda mais claro quanto a música de DOOM 2016 e Eternal carregava a personalidade de seu compositor. Tirar Mick Gordon da equação revela exatamente quais elementos pertenciam a ele.

Ao mesmo tempo, prova que DOOM não depende de uma única linguagem musical.

Talvez essa seja a conclusão mais interessante de todas. Mick Gordon ajudou a descobrir como o inferno moderno deveria soar.

A Finishing Move teve um problema diferente: Precisava descobrir como esse inferno soava séculos antes.

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