Pose é uma série de drama americana que trata sobre diversas questões do cenário LGBTQIA+ afro-americano e latino-americano da cidade de Nova York entre o final dos anos 80 e início dos anos 90.

Criado e produzido por Ryan Murphy e Brad Falchuk (“American Horror Story”), o programa foi transmitido originalmente entre junho de 2018 e junho de 2021, no canal FX com um elenco formado quase 100% por atores trans, gays e negros.

O material original foi escrito por Steven Canals, e Janet Mock foi contratada como roteirista, diretora e produtora. Dessa forma, todos que participaram do processo criativo têm uma conexão profunda com o tema.

A produção apresenta vários aspectos da cultura Ballroom, onde os personagens em destaque são dançarinos e modelos que competem por troféus e reconhecimento nos famosos bailes que agitavam a noite nova iorquina.

Pose retrata com maestria a realidade das comunidades LGBTQIA+ na época, e a vivência das minorias, onde gays, travestis, transexuais e estrangeiros são os protagonistas do enredo.

A série mostra como eram os eventos chamados Balls, que funcionavam como ponto de encontro e de expressão artística, em uma mistura excêntrica entre música, dança e moda.

Pose
Imagem: Ballroom/ Pose

Essas competições eram feitas em discotecas, e geralmente organizadas por drag queens, sendo uma forma de resistência ao preconceito e ao estilo de vida “polido” que a sociedade impunha na época.

Considerados como eventos da cena underground, onde as candidatas desfilam seus looks com um tema escolhido na noite, sendo avaliadas por jurados, onde as melhores ganham troféus e principalmente o reconhecimento na comunidade.

É mais ou menos como no programa “RuPaul’s Drag Race”, mas se o reality foca na competição em si, Pose mergulha no histórico e na importância desses eventos para o público  LGBTQIA+ até os dias de hoje.

A cultura dos Balls começou no bairro do Harlem e atualmente existem ballrooms em mais de 15 cidades dos Estados Unidos, a maioria na costa nordeste, incluindo Nova York, Newark, Jersey City, Filadélfia, Baltimore e Washington.

A maioria dos participantes desses eventos na época retratada na série, fazia parte das chamadas “Casas”, que eram como pensões, lideradas por personalidades conhecidas como “Mães”.

Essas líderes forneciam não apenas um teto, mas também proteção, educação e principalmente, acolhimento para jovens vindos de famílias que não aceitavam seu modo de vida.

Marginalizados pela sociedade e pelos próprios pais, que geralmente os expulsavam após descobrirem que eram gays, essas pessoas encontravam nessas comunidades, o amor que precisavam para seguir com suas vidas.

A primeira temporada foi extremamente aclamada pela crítica e recebeu diversas indicações e prêmios, incluindo no Globo de Ouro nas categorias “Melhor Série Dramática” e “Melhor Ator em Série Dramática” para Billy Porter.

A importante revista de entretenimento, Entertainment Weekly, lembrou que um dos maiores acertos da série está no fato do elenco ser composto principalmente por transexuais, algo verdadeiramente histórico.

“A mensagem de inclusão nunca se mistura com a missão de contar algo próximo que encanta a rainha que existe em todos nós. Nós assinamos embaixo!”

Mãe Blanca
Imagem: Mãe Blanca/ Pose

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Pose aborda temas sociopolíticos importantíssimos sem ficar denso demais, como por exemplo o grande aumento de pessoas infectadas com o vírus HIV, a pressão social de se adequar a uma estética considerada feminina e a marginalização de transexuais.

A série vai ainda mais além, e detalha como certos indivíduos experienciavam transfobia dentro da própria comunidade gay, além de trazer assuntos relacionados a sexualidade e as cirurgias de mudança de sexo.

A trama acompanha a vida de Blanca, uma mulher transgênero que descobre ser portadora do vírus HIV. Sabendo que tem pouco tempo de vida em uma sociedade que discriminava os portadores de AIDS, ela decide deixar sua mentora Elektra para construir sua própria casa.

Ela acolhe o talentoso bailarino Damon, que foi expulso de casa por assumir sua sexualidade, e Angel, uma trans em busca do verdadeiro amor e “a vida comum de uma mulher”.

Embora seja uma obra de ficção, a série se inspira fortemente no brilhante documentário produzido e dirigido por Jennie Livingston em 1990, chamado “Paris Is Burning”.

Várias Casas são baseadas em localidades reais, e algumas pessoas do documentário também fazem participações especiais na série, como Sol Pendavis Williams, da Casa Pendavis e Jose Gutierez Xtravaganza, um ícone da cena voguing, que interpreta um juiz na primeira temporada.

O diretor Ryan Murphy e a produtora Janet Mock já declararam que “Paris Is Burning” é um texto que ajudou não apenas na criação da série, mas que também acrescentou muito em suas identidades quando o viram pela primeira vez.

Contendo o maior elenco transgênero da história da televisão, Pose também reverteu toda a sua renda para a comunidade LGBTQIA+, financiando projetos de educação em saúde, como combate ao HIV.

Vale lembrar também que Hector Xtravaganza, um ícone super renomado na cultura ballroom, também prestou consultoria aos roteiristas.

A série faz um panorama interessante entre o mundo classe média branca dos EUA com a cena underground, e brilha ao mostrar o drama de indivíduos soropositivos em uma época onde pessoas eram praticamente descartadas pela sociedade ao receber o diagnóstico.

O processo para a seleção do elenco durou cerca de seis meses e os produtores tomaram o cuidado para que todas as mulheres trans fossem muito parecidas com sua própria versão fora das telas.

O esforço resultou nas brilhantes escolhas de MJ Rodriguez, Indya Moore, Dominique Jackson, Hailie Sahar e Angelica Ross. Apenas três atores brancos fazem parte da equipe, sendo Evan Peters e James Van Der Beek, e Kate Mara.

Pose
Imagem: Elenco de Pose/ Reprodução

Além disso, Billy Porter foi o ganhador do Grammy 2019 por seu papel em Pose, onde se tornou o primeiro ator assumidamente homossexual a receber a estatueta de “Melhor Ator em Série de Drama”.

Porter consegue trazer todo seu carisma para a história, além de ser responsável por alguns dos momentos mais dramáticos, onde seu personagem passa pelas dificuldades causadas pelo vírus HIV.

O enredo da série Pose

A primeira temporada de Pose é ambientada entre 1987 e 1988 e analisa vários segmentos da vida e da sociedade em Nova Iorque, a cultura afro-americana e latina, a cena social e literária do centro da cidade, mas principalmente a ascensão da cultura Ball.

A protagonista Blanca, uma mulher trans, após ser diagnosticada como soropositiva decide abrir a Casa Evangelista, para abrigar jovens homossexuais e transexuais que não tem onde morar, além dos concursos organizados em bailes LGBTQIA+.

Ela convida o jovem Damon para ingressar em sua casa, uma vez que ele foi expulso de casa por ter assumido sua homossexualidade. Blanca incentiva Damon a fazer um teste para a New School for Dance, onde ele é aceito.

A segunda temporada começa em 1990, e o aspecto vogue da cultura Ball está começando a se popularizar com o lançamento da canção de Madonna, “Vogue”. Com isso os membros da comunidade encontram novas oportunidades como dançarinos e professores de dança.

Blanca, embora ainda se sinta saudável, descobre que sua contagem de células T caiu para 200, o que significa que seu diagnóstico mudou de HIV positivo para AIDS.

Judy, Blanca, Pray Tell e a maior parte da família de Blanca participam do protesto da ACT UP “Stop the Church” na Catedral de São Patrício e são presas por desacato à autoridade.

Angel entra em um concurso de modelos promovido pela Ford Models e é selecionada como uma das dez finalistas, mas é explorada por um fotógrafo. Blanca e Papi espancam o fotógrafo explorador e pegam de volta as fotos e os negativos.

A terceira e última temporada se passa já em 1994 e o Ballroom é uma “memória distante” para Blanca, que faz malabarismos como auxiliar de enfermagem e namora Christopher, um médico que trabalha no mesmo hospital.

O recém-eleito prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, reprimiu o trabalho sexual na cidade, forçando Elektra a deixar o Hellfire Club e Lemar se tornou o pai da casa gananciosa e faminta, a Casa Khan.

A agência de talentos de Papi está prosperando, enquanto a carreira de modelo de Angel estagnou e depois de receber um diagnóstico terminal de linfoma intratável, Pray Tell visita sua cidade natal para informar sua família e amigos, que ele deixou há 20 anos.

A Casa Evangelista se reúne para assistir à cobertura ao vivo da perseguição em baixa velocidade de OJ Simpson (na qual eles compartilham opiniões diferenciadas) e falar da morte de Cubby após sua batalha contra a AIDS.

Personagens principais

Elektra Abundance Evangelista

Pose
Imagem: Elektra Abundance Evangelista/ Pose

Elektra Abundance Evangelista, interpretada por Dominique Jackson, é uma verdadeira potência na cena balls, ela é a “Mãe” da Casa Abundance, e se sente desafiada quando uma de suas filhas, Blanca, decide criar sua própria casa e reunir seus próprios “filhos”.

Apesar de seu comportamento severo e relutância em expor sua vulnerabilidade e inseguranças, em alguns momentos Elektra demonstra sua humanidade ao expressar seus sentimentos, especialmente com Blanca.

Com o colapso da Casa da Abundance devido a problemas financeiros, ela procura a ajuda de Blanca em busca de companhia e assistência.

Elektra é dona de uma personalidade forte e projeta sua imagem para ser um guia para as mulheres de sua comunidade. Muitas vezes sua atitude exagerada e imponente acaba ofuscando suas próprias filhas.

Blanca Rodriguez Evangelista

Pose
Imagem: Blanca Rodriguez Evangelista/ Pose

Mãe Blanca Evangelista, interpretada por Mj Rodriguez, é uma ex-integrante da Casa Abundance que, após ser diagnosticada com HIV, decide formar a Casa Evangelista.

Recebendo Damon Richards , Angel e o novo rosto de Lil Papi , ela se esforça para ser uma casa conhecida entre outras no Ballroom, ao mesmo tempo em que fornecia cuidados e nutrição que faltavam em suas casas anteriores.

Blanca incentiva seus filhos a buscarem novas oportunidades, ajudando Angel a buscar trabalho como modelo para escapar dos perigos do trabalho sexual. Ela também incentiva Damon a fazer um teste para a New School for Dance, onde ele é aceito.

Frequentemente, enquanto seus pais dormiam, ela se vestia de maneira tradicionalmente feminina e ia aos bailes, voltando para casa antes que eles acordassem.

Durante um dia de Ação de Graças, no entanto, sua mãe deu um sorriso malicioso, finalmente confessando que tinha visto uma garota entrando e saindo do quarto dele de vez em quando.

Blanca então confessou a ela que a garota era ela, assumindo-se como transgênero, mas sua mãe desaprovou, forçando-a a sair de casa no final da adolescência.

Damon Richards Evangelista

Damon Richards-Evangelista
Imagem: Damon Richards-Evangelista/ Pose

Damon Evangelista, interpretado por Ryan Jamaal Swain, é um aspirante a dançarino de ballet de Allentown, que tendo sido renegado por sua família, mudou-se para a cidade de Nova York, onde não tinha como se manter.

Ele foi trazido para a cena do Ballroom pela Mãe Blanca Rodriguez , que o acolheu na Casa Evangelista e o levou para se matricular em sua escola dos sonhos, a New School for Dance, onde ele foi rapidamente aceito.

Quando Damon revelou sua opção sexual para seu pai, foi fortemente repreendido por ele, e em seguida expulso de sua casa. Sua mãe também não aceitou um filho gay, por acreditar que ele seria condenado por Deus.

Angel Vasquez Evangelista

Angel Vasquez-Evangelista
Imagem: Angel Vasquez-Evangelista/ Pose

Angel Evangelista, interpretada por Indya Moore, é uma ex-membro da Casa da Abundance, que decide seguir sua antiga irmã, Blanca Rodriguez, em sua nova Casa Evangelista.

Ela é uma trans imatura e propensa ao drama, que busca por reconhecimento e sonha com um amor verdadeiro. Ela espera sobreviver e ter sucesso em uma sociedade que a rejeitou repetidamente.

Enquanto trabalhava fazendo programas, ela acabou se apaixonando por seu mais novo cliente, Stan Bowes. Apesar de ser repetidamente decepcionada, ela continuou a ter relações com ele até o inesperado encontro com sua esposa Patty.

Anos depois que o caso acabou, ela voltou a se envolver no trabalho sexual até ser motivada por Blanca a seguir a carreira de modelo.

Pray Tell

Pose
Imagem: Pray Tell/ Pose

Pray Tell, interpretado por Billy Porter, é um mestre de cerimônias na cena dos bailes, um membro do Conselho dos Mestres de Cerimônia e uma figura paterna para os filhos do Ballroom.

Ele testemunhou as repetidas baixas da epidemia de HIV, e também foi diagnosticado como soropositivo, mas encontrou uma nova esperança através do ativismo, depois que foi levado a uma reunião da ACT UP pela enfermeira Judy Kubrak .

Em sua infância, Pray Tell sofreu abuso físico de seu pai biológico que não aceitava sua homossexualidade e por expressar sua feminilidade. Quando sua mãe se casou novamente, ele sofreu uma agressão sexual incestuosa de seu padrasto Ernest.

Esteban “Lil Papi” Martinez Evangelista

Esteban Lil Papi Martinez-Evangelista
Imagem: Esteban “Lil Papi” Evangelista/ Pose

Papi Evangelista, interpretado pelo ator Angel Bismark Curiel, conhece bem as ruas e é experiente, mantendo sempre uma atitude lúdica e otimista e uma relação fraterna com os filhos da Casa Evangelista.

Ele já havia vivido entre famílias adotivas antes de sair para as ruas e também largou o colégio. Enquanto estava na cidade de Nova York , ele fez amizade com Pito, que o acolheu, dando-lhe a oportunidade de vender e distribuir drogas.

Papi entra para a Casa Evangelista, mas depois de ser pego vendendo drogas é expulso pela Mãe Blanca. Após um curto período de tempo, ele é aceito de volta, mas a essa altura já havia se juntado à Casa Ferocidade.

Análise e o contexto da série Pose

Pose é diferente de tudo que Ryan Murphy já fez em sua carreira, e particularmente, uma das séries mais emblemáticas, quando se trata de questões deploráveis como preconceito e descaso com as minorias.

A trama se passa na cidade de Nova York dos anos 1980, no auge da cena Ballroom e uma das principais Casas é a “House of Abundance”, comandada pela Mãe Elektra Abundance.

Vale lembrar que a série se baseia em personagens e localidades que realmente existiram, e a Casa Abundance é uma delas, assim como Elektra é baseada em uma pessoa real.

Abundance foi inspirada na casa mais icônica de Nova York, a “House of LaBeija”, fundada em 1970 por Crystal LaBeija, e mais tarde adquirida por Pepper LaBeija, que a administrou por mais de 30 anos.

Outras casas bastante conhecidas, que fizeram história na cena Ball dos anos 80, foram Omni, Blahnik e Xtravaganza.

Dessa forma, mesmo que Abundance e Elektra sejam personagens inventados para a série, eles tem um pouco de todas estas personalidades que estavam presentes naquele momento.

A própria atriz Dominique Jackson, que interpreta a Mãe da Casa Abundance, também fez parte da cena Ballroom, quando veio pela primeira vez à cidade de Nova York, de acordo com uma entrevista que ela cedeu à revista Refinery 29.

“Acabei vindo para Nova York e entrei na cena Ballroom e conheci essas mulheres, algumas das garotas mais bonitas que já vi. Eu sabia que não era gay e não era hetero, e agora percebi que poderia ser uma mulher.”

Dominique Jackson
Imagem: Dominique Jackson/ Pose

Os criadores e produtores da série não mediram esforços para garantir que seus personagens representassem a época com a maior precisão e veracidade possível.

Eles não apenas escalaram cinco atores transgêneros que estavam de fato na cena para interpretar os protagonistas, como também contrataram Hector Xtravaganza, outra lenda do Ball, para servir como consultor.

A série faz um brilhante trabalho em abordar toda a repercussão da AIDS na época para a  comunidade LGBTQIA+, e como as pessoas que contraíram a doença eram desacreditadas pela medicina, uma vez que não existia nenhum tipo de tratamento eficaz.

Temos toda a questão religiosa também colocada como um ponto importante na trama, já que a primeira coisa que escutamos da mãe de Damon, é que ele precisa pedir perdão, caso contrário Deus irá puni-lo com a “praga”, ou o HIV.

O roteiro lida a todo momento com termos usados pela comunidade e que ao contrário do que se possa pensar, são carregados de um significado muito específico, como “mãe”, “filho”, “casa” por exemplo.

Não são palavras que estão ali por acaso, já que todos naquele contexto, mesmo que não tenham o mesmo sangue, formam uma espécie de família que serve como base, uma vez que seus parentes decidiram simplesmente abandoná-los, ao invés de tentar entendê-los.

Blanca como a Mãe, apoia seus filhos no que eles precisam para evoluir e crescer, sempre mostrando o que é certo e errado, e pelo que vale a pena lutar nesta vida, a fim de deixar seu legado.

Angel e Damon, por outro lado, são os jovens adotados por ela, que acabam formando um laço fraternal onde ambos necessitam um do outro para se defender e se apoiar, seja nos momentos bons ou ruins.

Dessa forma, a série nos mostra que a verdadeira família é aquela que te apoia em suas escolhas, querendo sua felicidade acima de tudo, e não que seja apenas alguém moldado pela hipocrisia imposta pela sociedade.

Através do roteiro emblemático de Pose, escutamos a voz daqueles que foram ridicularizados e marginalizados por não corresponderem aos padrões pré estabelecidos pela sociedade, onde até mesmo os personagens secundários acabam ganhando espaço para acrescentar suas experiências e seus dramas particulares.

Atualmente a série tem suas três temporadas completas, disponíveis no catálogo de uma das maiores plataformas de Streaming da atualidade, a Netflix. Para conferir é só clicar aqui!

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