Em seu segundo longa-metragem, após As Virgens Suicidas do ano de 1999, Sofia Coppola apresenta sua criação Encontros e Desencontros, um filme de comédia romântica dramática do ano de 2003, escrito e dirigido por ela e também produzido por Ross Katz (Marie Antoinette). No elenco, somos agraciados pelas atuações exemplares de Bill Murray no papel de Bob Harris, Scarlett Johansson como Charlotte, Giovanni Ribisi atuando como John e Anna Faris que interpreta Kelly.

O motivo que levou Sofia Coppola a escrever o roteiro, foi uma viagem à Tóquio, onde ela se encantou pela cidade. Durante sua estádia em um dos hotéis mais luxuosos da cidade o Park Hyatt Tokyo ao promover seu primeiro filme, ela deu início a uma história romântica, mas mesclada com melancolia, inspirada na solidão e alienação que presenciou.

Desde o primeiro momento, ao criar o personagem Bob, ela imaginou Bill Murray como o ator que o interpretaria. Para conseguir realizar essa vontade, ela enviou dezenas de mensagens, cartas e telefones destinadas a ele. O astro concordou com o papel, entretanto não assinou o contrato.

Por fim, sem escapatória Sofia usou $4 milhões do seu pequeno orçamento para começar a gravar o filme, sem nem se quer saber se Murray iria aparecer para as filmagens. Contudo, Murray realmente apareceu, e acabou entregando sua atuação a um personagem que seria um dos melhores e mais premiados de toda sua carreira.

As filmagens deram início em setembro de 2002 e durou somente 27 dias. Com um roteiro curto e um orçamento apertado, Coppola optou por manter um horário flexível, com uma equipe reduzida e o mínimo de equipamentos necessários. Os atores como também toda a produção, podiam fazer grandes improvisações durante as filmagens.

O cronograma era extremamente apertado delido ao orçamento, então as filmagens foram feitas seis dias por semana de uma forma extremamente rápida. Alguns membros da equipe eram americanos, contudo a maioria deles foram contratados já no Japão. Esse fato se tornou um grande desafio, já que a maioria deles não conseguiam se comunicar pessoalmente em inglês com a diretora, então usaram tradutores.

Uma curiosidade é que o Japão é um país conhecido por não tolerar atrasos, como nos outros países. Assim, durante uma das gravações em um restaurante, em um atraso considerado pequeno de 10 minutos, o dono do local se sentiu desrespeitado e desligou as luzes do local. Isso fez com que Coppola passasse a respeitar cada vez mais a cultura, tentando manter o máximo possível de ordem, para não incomodar a equipe.

Como a trama foca bastante no tema solidão, ela e seu diretor de fotografia Lance Acord, usaram um estilo visual próprio, para transportar essa ideia para o telespectador. Foram usadas tomadas fixas com foco no hotel, sem grandes movimentos de câmera. Já as luzes artificiais só foram utilizadas em caso de extrema necessidade. Isso porque o Park Hyatt Tokyo já era uma grande fonte de iluminação, como o caso do New York Bar, que fica dentro do local. Outra curiosidade, é que por respeito as normas do hotel, as gravações não podiam ser filmadas de madrugada, a fim de não incomodar os hóspedes.

As filmagens externas também aconteceram no famoso Shibuya Crossing, no popular cruzamento de pedestres da cidade de Tóquio. Alguns locais públicos, não puderam ao menos ser filmados, já que não havia autorização. Sofia disse que muitas vezes sentiu medo de ser parada pela polícia, por isso a ideia de uma equipe pequena.

Já o diretor de fotografia Lance Acord (Quero Ser John Malkovich) utilizou dos elementos de luz natural, em meio a áreas abertas e públicas no Japão. Assim, o filme terminou de ser editado em apenas 10 semanas, e o estúdio Focus Features comprou o projeto. A divulgação da obra foi feita por marketing boca a boca, antes mesmo de sua estréia acontecer nos cinemas.

Durante o Festival de Cinema de Telluride, o filme Encontros e Desencontros estreava, sendo um completo sucesso comercial e crítico. As performances de Murray e Johansson foram amplamente elogiadas, assim como a direção e roteiro de Coppola. Além disso, o fato de o filme ser ambientado no Japão, concedeu um grande destaque e técnicas de representatividade.

Durante o 76º Oscar, Encontros e Desencontros ganhou o prêmio de “Melhor Roteiro Original”, mas também foi indicado nas categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator. Além disso, faturou 5 prêmios no Globo de Ouro e outros três durante o British Academy Film Awards.

Coppola, recebeu os mesmos elogios por sua direção e principalmente roteiro. Em uma história carregada de uma discreta sensibilidade, bom humor, em um equilibro entre melancolia e prazer. Comercialmente falando, o filme conseguiu um feito inimaginável, alcançando uma bilheteria de $ 118,7 milhões, feito com um orçamento de apenas $ 4 milhões.

A Trama de Encontros e Desencontros

Encontros e Desencontros - Bill Murray e Scarlett Johansson
Encontros e Desencontros – Bill Murray e Scarlett Johansson – Imagem: Divulgação

A trama acompanha a chegada do famoso ator americano Bob Harris em Tóquio, onde vai filmar uma campanha publicitária do Uísque da marca Suntory, uma grande empresa de bebidas japonesa. Para isso, ele se hospeda no luxuoso Park Hyatt Tokyo. O ator está em uma crise de meia-idade, em meio a melancolia que sua rotina se tornou e o rumo que a sua vida trouxe para si. Além disso, ele é casado a 25 anos, e este casamento se encontra desgastado e cheio de tensões.

Já no Park Hyatt Tokyo, ele conhece a personagem Charlotte, uma jovem americana recem formada pela grandiosa Universidade de Yale. Ela está em Tóquio, junto ao seu marido John, um fotógrafo de celebridades que está no país a trbalho, mas em outras regiões, abandonada, ela passa a maioria dos seus dias enfurnada dentro do quarto do hotel.

Charlotte, assim como Bob, se sente triste, abandonada e desorientada. Contudo, seu maior problema é que ela não consegue algo ou alguém que a dê motivos e sentido para viver. Na maioria das vezes, ela se questiona sobre o seu casamento e um futuro que não enxerga na relação. Os dois personagens, tão diferentes, mas com sentimentos iguais, vão se cruzar no momento em que lidam com o choque cultural do Japão.

Durante a estadia no hotel, Bob e Charlotte se cruzam em diversos momentos, e em um determinado dia, acabam se apresentando no bar do hotel. Após alguns encontros, ela convida Bob, para um passeio na cidade a fim de visitar alguns amigos. O casal então prova da badalada vida noturna na capital durante uma noite de diversão. Assim, conforme os dias se passam, Bob e Charlotte criam uma conexão ainda maior, em meio a uma amizade que está se fortalecendo, enquanto desfrutam do tempo livre juntos.

Em uma determinada noite, quando cada um está em seu devido quarto e não conseguem dormir eles se encontram e começam a conversar sobre assuntos mais íntimos. Enquanto Charlotte fala sobre seu casamento e incertezas, Bob mostra toda sua melancolia em relação à carreira e vida. Por fim, eles estabelecem uma relação mútua, onde encontram muitas coincidências e pensamentos semelhantes.

Quando a estadia de Bob está quase no fim, Charlotte ouve a voz da cantora de jazz que trabalha no hotel, vinda do quarto do ator logo de manhã. Isso faz com que ela se sinta enciumada e durante um almoço entre os dois, ela mostra os sentimentos e os dois acabam com uma briga. Mais tarde, eles se reencontram no bar do hotel e Bob releva que irá embora no dia seguinte. Assim em uma última noite, eles conversam mais um pouco sobre a vida, em meio a dizeres que irão sentir muita falta um do outro.

Por fim, quando Bob está prestes a sair do hotel, eles se despedem de uma maneira sincera e emocionante, mas com certa insatisfação por algo não feito. Quanto Bob está indo para o aeroporto de táxi, ele acaba vendo Charlotte na rua e pede para parar o carro. Então ele caminha até ela e a abraça, e no meio a um sussurro no ouvido da personagem que não podemos ouvir, eles se beijam e ele parte.

Conexão e Desconexão

Charlotte e Bob
Os personagens Charlotte e Bob em Encontros e Desencontros – Imagem: Divulgação

Originalmente o nome do filme é Lost in Translation, que significa literalmente Perdidos na Tradução, uma expressão americana usada para os momentos em que traduzimos algo em outra língua e perdemos o essencial do que foi dito. Pensando por esse termo, o filme mostra os personagens sendo incompreendidos na cidade de Tóquio, mesmo quando possuem tradutores, eles não conseguem entender a essência dos dizeres.

Tudo isso, porque eles não conhecem o real significado do que está por trás das palavras, mesmo que a tradução seja perfeita, isso é algo impossível de se ter. Nesse quesito, o filme nos mostra a enorme barreira de comunicação que existe entre os países, tanto por palavras como em atitudes, o que pode acarretar em uma série de complicações e divergência.

Além disso, Sofia Coppola explica que a história do filme é sobre “coisas que estão sendo desconectadas em busca de conexão”. Ou seja, culturalmente Bob e Charlotte estão desconectados do país que estão no momento, em uma diferença de horário e em meio a um enorme choque cultural. Muitas vezes o personagem Bob, não tem a menor noção do que o diretor comercial japonês está querendo dizer, mesmo com um intérprete, o essencial fica para trás, totalmente perdido na tradução.

Em outro momento de desconexão, acompanhamos os personagens não conseguindo lidar com o fuso horário do país, já que dormem durante o dia e saem para o bar do hotel no meio a noite. Esses dois fatores, fazem com que os personagens se sintam distantes do ambiente ao redor, em uma experiência de alienação devido as diferenças entre os países, como também uma desconexão com a própria vida em questão.

Já a conexão se dá em meio a desconexão, ambos possuem casamentos problemáticos, e enfrentam uma crise de identidade. Bob não está satisfeito com o rumo que sua vida tomou em uma a uma decadente carreira de astro de cinema, que não passa a verdade sobre o que sente. O ator se sente completamente alienado, ao tentar se conectar as pessoas da cidade. Além disso, o ambiente caótico, do local, faz com que ele se sinta ainda pior, lembrando de todo caos que foi sua vida.

Charlotte, que não faz a menor noção do que procura na vida, e qual rumo deve seguir. Ela se sente desgarrada do local, quando passeia pela cidade sem rumo. Todavia, quando está no quarto do hotel, se sente isolada, enquanto observa a agitada cidade pela janela, ou seja, em total alienação. Além disso, o hotel faz com que os hospedes se isolem da cidade, já que o local é tão grande e luxuoso que nada mais é necessário.

Contudo, o mesmo hotel cria um ambiente comum em que Bob e Charlotte conseguem se conhecer e criar uma conexão pessoal. Ambos desenvolvem uma uma grande amizade após apenas um pequeno momento juntos, fazendo com que percebam que ninguém ali está na verdade sozinho na busca pelo sentido da vida. Além do mais, quando Charlotte e Bob passam a noite fora do hotel se divertido, ela passa a perceber que a distância entre ela e o local está diminuindo. Os personagens, se unem pelo vazio que existe dentro de si, onde naquele momento, ninguém mais pode compreende-los, além dos dois.

Uma Narrativa Única

Scarlett Johansson como Charlotte
Scarlett Johansson como Charlotte em Encontros e Desencontros – Imagem: Divulgação

A obra Encontros e Desencontros normalmente é associado a uma narrativa única, muito diferente dos blockbusters com uma trama genérica, mas tão pouco parecida com grandes filmes consagrados e indicados a inúmeros prêmios. A narrativa é focada só e apenas no relacionamento de Bob e Charlotte, e no que cada um está sentido naquele momento. Os fatores externos não fazem parte do protagonismo do filme, não existem maiores obstáculos para o relacionamento, e nada causa um grande impacto em suas vidas, a narrativa vem de dentro.

Sobretudo, a obra é muito conhecida por provocar as diferentes formas de ver um romance, nada convencional. Os personagens terminam o filme separados, mesmo em volta de um enorme afeto que nutrem pelo outro, além de uma grande tensão sexual que existe entre os dois. Mesmo assim, o final acaba mostrando que talvez, em algum dia, o romance possa sim acontecer. Contudo, a falta de sexo, também pode mostrar que talvez o relacionamento seja mais platônico do que romântico. O beijo final, que pode significar romance, também é ambíguo, podendo também mostrar apenas carinho e amizade entre os dois.

Outro fator importante se dá pelo fato que que embora os dois sejam casados, eles são comprometidos com o relacionamento e são desvinculados dos parceiros. Ou seja, Bob ainda é casado, contudo dorme com outra mulher, mas essa mulher não é Charlotte, que nutre um sentimento ambíguo entre amizade e romance. A diferença de idade, talvez faça Bob sentir inocência sobre a relação, talvez queira, mas talvez não. Além disso, o filme retrata a diferença de idade como uma desconexão, assim como os personagens são desconexos Tóquio.

Uma das cenas mais emblemáticas se dá logo no início do filme, quando a foto do traseiro de Charlotte, que está deitada na cama, usando uma calcinha rosa e transparente aparece durante exatos 36 longos segundos. A imagem é baseada nas pinturas foto realistas do artista americano, John Kacere dos anos 60, na época ele teve seu destaque por sempre pintar corpos femininos, que iam da barriga a traseiro. Bem como, o filme Desprezo de 1963 de Brigitte Bardot

Alguns críticos consideraram a imagem, precursora de um romance entre Bob e Charlotte, algo que não aconteceu, mas pode. Embora parece apelativa, a imagens é sutil, mas ao mesmo tempo óbvia, mostrando qualidades estéticas e eróticas. Todd Kennedy, um estudioso de cinema, argumenta falando que “dura tanto tempo que se torna estranha, forçando o público a se conscientizar (e até mesmo se questionar) se é permitido olhar”.

O Isolamento do Homem Moderno

Bill Murray no papel de Bob Harris
Bill Murray no papel de Bob Harris em Encontros e Desencontros – Imagem: Divulgação

Um dos grandes vencedores do Globo de Ouro e Oscar, Encontros e Desencontros foi um dos filmes mais populares durante o início dos anos 2000. A trama tem o tema central bem interessante e muito têm ao que se comparar aos momentos em que vivemos e ainda enfrentamos, nos últimos três anos. Conforme acompanhamos os personagens sobrevivendo a momentos de desconforto e descontentamento com a própria vida, mais repensamos sobre os nossos próprios sentimentos.

Em um Tóquio, capital do Japão com uma população estimada de 37.274.000, existem duas pessoas que se encontram, em meio a alienação ao local e ao sentimento de vazio próprio. Uma cidade tão grande, com muitas pessoas e uma tecnologia avançada, mas que pode esconder corações solitários e pensamentos desconexos.

A simples dificuldade de comunicação entre duas línguas tão diferentes funciona como uma metáfora, mas de forma sutil e eficiente, ao que se remete ao isolamento. Mesmo que na forma de um singelo filme, devemos entender que conforma as redes sociais e a tecnologia tente aproximar as pessoas, os seres humanos precisam e possuem a necessidade de conexão. Além disso, o isolamento, não se limita aos personagens do filme, mas a nossa própria realidade, ainda mais em tempos como esse.

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