Dirigido por Denis Villeneuve, que também assina o roteiro, em parceria com Jon Spaihts e Eric Roth, Duna é o primeiro de dois filmes que irão adaptar o clássico best-seller escrito por Frank Herbert, abrangendo os acontecimentos da primeira metade do livro.

O longa foi produzido pela Legendary Entertainment e distribuído pela Warner Bros. Pictures, sendo estrelado por um time repleto de nomes conceituados em Hollywood, digno da grandiosidade que a produção representa.

O elenco conta com as atuações de Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Josh Brolin, Stellan Skarsgård, Dave Bautista, Zendaya, David Dastmalchian, Stephen Henderson, Charlotte Rampling, Jason Momoa e Javier Bardem.

Duna é considerado por muitos, como o livro de ficção científica mais importante e influente de todos os tempos, que já serviu como inspiração para a criação de outros universos da cultura POP, como “Star Wars”, “Star Trek” e “Alien”, por exemplo.

Independentemente de seu sucesso comercial, a história é continuamente apontada como uma das mais renomadas obras de fantasia já publicadas, e um dos pilares da ficção científica moderna.

Duna
Imagem: Duna/ Frank Herbert

A saga de Paul Atreides e sua família no planeta Arrakis, trouxe grandes mudanças para o gênero, com uma abordagem muito mais humanista do que tecnológica, dedicada a discutir temas que até então, não eram abordados por esse tipo de literatura.

Na verdade, Duna é um universo ficcional gigantesco, que se estende por uma série de seis livros, tendo sua primeira publicação em 1965.

Frank Herbert fez uma grande inovação para a época, ao utilizar citações e elementos que remetem a paradoxos filosóficos, religiosos e psicológicos, e que até então, nunca haviam sido usados dessa forma.

Posteriormente o universo ainda viria a ser expandido nos livros de Kevin J. Anderson e Brian Herbert, assim como em outras plataformas, como jogos de RPG e de tabuleiro.

Apesar de ser um dos livros mais importantes da ficção científica, Duna também se mostrou durante a história do cinema, como uma obra extremamente complicada de ser adaptada, por conta da sua grandiosidade e pela complexidade da sua trama.

O primeiro cineasta a topou esse desafio, foi Alejandro Jodorowsky (“A Montanha Sagrada“- 1973) nos anos 70, como é brilhantemente mostrado no documentário Duna de Jodorowsky produzido em 2014.

Contudo, sua ideia de um projeto mirabolante envolvendo artistas como Pink Floyd, Mick Jagger, Orson Welles e até mesmo Salvador Dalí, não conseguiu aprovação, e tão pouco financiamento por parte dos estúdios.

Somente em 1984 a primeira adaptação de Duna para o cinema sairia do papel, comandada pelo diretor David Lynch (“Cidade dos Sonhos“- 2001), mas o filme passou por vários problemas durante a produção e foi um grande fracasso de crítica e bilheteria.

A obra só voltaria às telas em 2000, com uma minissérie pouco conhecida pelo público, chamada “Frank Herbert’s Dune” e sua sequência dividida em três partes, “Children of Dune“, que foi estrelada por James Mcavoy.

Todos os fracassos dessas versões no passado, fizeram com que Duna se tornasse um projeto encarado como extremamente arriscado pelos produtores e estúdios de Hollywood.

Children of Dune
Imagem: Children of Dune/ Syfy

Mas em 2017 Denis Villeneuve aceitou essa missão, declarando ser “um sonho antigo”, mas mesmo ele, sabia que se tratava de um longo processo até conseguir os direitos de produção.

Além disso, o diretor tinha em mente que precisaria finalizar os projetos em que estava envolvido na época, (“A Chegada” e “Blade Runner 2049″) antes de começar a trabalhar em Duna.

Com uma história bastante complexa que envolve Casas que comandam planetas dominados por um império, a história de Frank Herbert é banhada em teor político, ecológico e religioso.

Colocar tudo isso nas telas, de uma forma que o público se identificasse, não seria uma tarefa simples, uma vez que a densidade da trama facilmente poderia entediar aqueles que não estão familiarizados com este tipo de narrativa.

Em março de 2018, Villeneuve finalmente conseguiu um contrato para produzir dois filmes pela Warner Bros. Seu objetivo era dividir a história em duas partes, como foi feito em “It- A Coisa” de Stephen King, em 2017 e posteriormente em 2019.

Desde o início das negociações, o cineasta afirmou que “não concordaria em fazer essa adaptação do livro com um único filme”, uma vez que Duna era “muito complexo” para caber em apenas duas horas de tela.

No entanto, todos os acordos subsequentes foram para garantir a produção do primeiro filme, e novos acordos de produção deverão ser feitos para iniciar a produção do segundo.

A grande verdade é que poucos diretores da atualidade seriam tão certeiros para uma adaptação de Duna quanto Denis Villeneuve, que além de ser um fã incondicional da obra, já mostrou que sabe lidar com tramas densas.

Contando com uma lista de excelentes filmes desde o início de sua carreira, como, “Incêndios“, “Os Suspeitos” e “O Homem Duplicado“, o diretor franco-canadense veio a ganhar uma atenção especial dos críticos, depois de seu trabalho em “Sicario: Terra de Ninguém“.

Villeneuve tornou-se recentemente bastante conhecido pelo público, por adaptar obras icônicas da cultura POP, como “A Chegada” em 2016 e “Blade Runner 2049″ de 2017, e mais uma vez, tem a difícil missão de trazer uma grande história para as telas, talvez a maior de todas.

A trama de Duna acompanha os integrantes da Casa Atreides, mas principalmente o Duque Leto Atreides (Oscar Isaac), seu filho Paul Atreides (Timothée Chalamet), sua concubina Lady Jessica (Rebecca Ferguson), que se trata de uma Bene Gesserit, e seus servos.

A nobre família passa a administrar o planeta desértico chamado Arrakis, lugar de onde provém a única fonte da Especiaria conhecida como “Melange”, o material mais valioso do universo, fundamental para a navegação espacial e para o desenvolvimento tecnológico.

Enquanto isso, uma conspiração está se formando contra eles, partindo do Clã Harkonnens, os antigos gestores de Arrakis, o que colocará todo o destino da família e do planeta em jogo.

Clã Harkonnens
Imagem: Clã Harkonnens/ Reprodução

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Paul Atreides é o promissor Herdeiro do Clã Atreides, que recentemente tem tido sonhos com uma misteriosa garota nativa de Arrakis chamada Chani (Zendaya).

Seu povo, os Fremen, foi explorado pelos Harkonnens, que se tornaram extremamente ricos e poderosos com a mineração da Especiaria existente no planeta.

Com o Clã Atreides assumindo o comando de Arrakis, Paul precisará desenvolver suas habilidades e vingar sua família, cumprindo uma antiga profecia que aparentemente está relacionada a ele, trazendo dessa forma, a paz para o Universo.

Sua mãe, Lady Jessica pertenceu à ordem das misteriosas Madres conhecidas como Bene Gesserit, uma antiga escola de treinamento físico e mental para mulheres, cuja vivência está atrelada ao misticismo e ao uso de certos poderes.

Com a responsabilidade de dar à luz ao Escolhido, ela treinou Paul desde criança para que ele desenvolvesse essas habilidades distintas, a fim de que o garoto pudesse assumir seu verdadeiro papel de liderança.

Durante cerca de duas horas e meia de filme, entramos em uma verdadeira saga épica e visualmente magnífica, com a presença de enormes cenários e locações impressionantes, com destaque para sua identidade visual única.

Certamente uma das características mais marcantes da obra e motivo pelo qual ela se tornou tão importante para o gênero, seja sua ambientação completamente diferente de uma ópera espacial comum.

O universo de Duna é quase feudal, onde as casas nobres governam seus planetas e o jogo de intrigas e as tomadas de poder servem como norte para as tomadas de decisão dos personagens.

Não há robôs nem computadores, sendo que toda tecnologia existente, é analógica ou biológica. Dessa forma, o autor consegue valorizar a figura humana e as questões sociais, políticas e até mesmo religiosas.

A invenção dos escudos de força, fez com que todas as armas de longa distância (incluindo lasers) perdessem a efetividade. Por isso o combate em Duna é corpo-a-corpo, onde as únicas armas efetivas são facas e espadas.

Duna
Imagem: Duna/ Reprodução

Isso exige que os exércitos sejam bem treinados e as batalhas se aproximem muito do que se vê nas histórias medievais, onde o diretor pode dar ênfase na movimentação e nas táticas de guerrilha.

O estúdio já planejava que a história fosse dividida, com o filme de 2021 sendo a primeira parte dos eventos do livro. Essa abordagem faz com que as coisas aconteçam de forma mais lenta, influenciando no ritmo do filme.

Embora essa dinâmica seja indispensável, devido a quantidade de informações necessárias para o entendimento da trama, Villeneuve busca construir uma evolução em escalas, para tentar manter o interesse do público.

De fato, todos esperavam por algo do nível “Star Wars” ou “Star Trek”, o que é extremamente compreensível, uma vez que as duas franquias estabeleceram os rumos da ficção científica e praticamente todas as adaptações do gênero acabam sendo comparadas a elas.

Ambas as obras trazem arcos envolventes, com personagens carismáticos e dinâmicos, o que pode causar um certo desconforto para aqueles que esperam algo parecido em Duna, que funciona de um modo completamente diferente.

Ainda que tenhamos locações maravilhosas e batalhas gigantescas, a abordagem na perspectiva da ação e o ritmo de desenvolvimento do enredo é “beeem” diferente, uma vez que as subtramas funcionam como um tipo de escalada para os momentos de transição.

Enquanto o filme caminha, e o objetivo de Paul vai ficando mais claro aos poucos, a ação vai esquentando, mas apenas como uma espécie de pano de fundo. De forma sutil, essa lentidão no arco do protagonista é o que dita a sequência da narrativa.

Os personagens ganham apresentações e contexto de forma progressiva, sendo que as ferramentas utilizadas para transitar entre a mitologia e o desenvolvimento da história podem soar de modo confuso até certo ponto.

Isso fica bem representado principalmente no último ato do longa, que foge totalmente do que estamos acostumados a ver, quando se sabe que uma sequência já está nos planos do estúdio.

Apesar dessa perspectiva, conforme a narrativa de Duna se encaminha para o final, o drama contemplativo progressivamente começa a dar espaço para as conspirações políticas, que passam a dominar a história.

Uma escolha corajosa, e particularmente acertada da parte de Villeneuve, é a de não explicar pequenos detalhes óbvios, deixando para o público presumir que um personagem tem habilidades mentais ao virar os olhos, ou que o escudo impeça uma pessoa de ser baleada, mas não de ser golpeada com facas ou dardos lentos.

Duna
Imagem: Duna/ Reprodução

Essa característica descende da própria obra original, que deixa para que o leitor entenda as nuances pelo próprio contexto. Da mesma forma, as escolhas do diretor para o filme fazem com que muitos detalhes dependam do investimento do público.

Um espectador mais desatento ou pouco engajado na trama, certamente dirá que o filme é chato ou monótono, mas essa abordagem é bastante familiar para quem acompanha a filmografia de Villeneuve.

Isso não quer dizer que o diretor abre mão de todos os elementos para fazer de Duna, um verdadeiro Blockbuster, mas apenas que o ele preza por não desafiar a inteligência de seu público.

Precisamos também dar os devidos créditos para a extrema qualidade técnica de Duna, como a fotografia grandiosa de Greig Fraser e o design de produção de Patrice Vermette que remete completamente aos livros, com cenários vastos e opressores, figurino impecável e personagens impactantes.

Na verdade, a escolha de não deixar tudo explicado, é compensada por meio da linguagem audiovisual, onde o temor de que algo ruim pode acontecer está no clima construído pela cena, principalmente na trilha sonora.

E por falar em sonoridade, o destaque aqui com certeza vai para o trabalho de Hans Zimmer. O respeitado compositor alemão criou uma trilha sonora imponente, que conversa com a obra de forma impecável e grandiosa.

Portanto, Denis Villeneuve se prova, mais uma vez, hábil e versátil em montar sua equipe técnica e seu elenco. Isso fica evidente no quanto Duna não se parece em nada com outros filmes de ficção científica.

Sem dúvidas o longa apresenta uma variedade considerável de personagens e várias estrelas de Hollywood foram selecionadas para interpretá-los, mesmo que infelizmente, nem todos puderam ser bem desenvolvidos.

Rebecca Ferguson interpreta Lady Jessica, a mãe de Paul, que representa a ponte emocional entre o público e o enredo, devido à relação com seu filho, expressando também o medo pelo seu futuro e o peso das responsabilidades que ele carrega.

Oscar Issac simboliza a nobreza e liderança como o Duque Leto Atreides e além deles, Josh Brolin como Gurney Halleck e Jason Momoa como Duncan Idaho, são membros mais importantes para a Casa Atreides e peças chave no treinamento de Paul.

Duque Leto Atreides
Imagem: Duque Leto Atreides/ Duna

Do lado dos Harkonnen, Stellan Skarsgård encarna o cruel líder Barão Vladimir Harkonnen, que por sinal é uma das melhores caracterizações do filme, enquanto Dave Bautista aparece como seu sobrinho sádico Glossu Rabban.

Sharon Duncan-Brewster interpreta Liet Kynes, uma cientista importante em Arrakis, que passou por uma inversão de gênero em relação à obra original, e Javier Bardem interpreta Stilgar, o líder de uma das tribos nativas de Arrakis.

A participação de Zendaya pode ter decepcionado alguns fãs, uma vez que ela mal dá as caras como Chani, uma das nativas de Arrakis. Contudo, é bom lembrar que a jovem atriz terá um papel bastante importante na segunda parte de Duna.

Timothée Chalamet, que por sinal, vem acumulando experiências interessantes em sua carreira, consegue imprimir de certa forma, as camadas de seu personagem, sem soar completamente burguês, ainda que sua estrutura seja essa.

Por conta do talento do ator, conseguimos entender suas dores e anseio, onde ele deixa claro que Paul está em uma jornada de crescimento.

Este com certeza é o melhor exemplo de como o ator soube lidar com seu protagonista, uma vez que Duna é justamente uma história sobre a jornada de ascensão do Herdeiro da Casa Atreides.

Fica bastante claro para nós, que o primeiro longa foi apenas uma apresentação desse enorme universo ao público, e que muito mais foi reservado para o futuro da franquia, que já tem dado pistas indicando até mesmo a produção de um terceiro filme.

O longa é descrito como Duna: Parte 1 e seu final não é conclusivo, pois como já sabemos, existe a pretensão de Denis Villeneuve em continuar a trama em uma segunda parte, o que completaria os acontecimentos do primeiro livro.

Essa abordagem foi uma grande sacada do diretor, pois somente desse modo, ele conseguiria se aprofundar nos temas mais complexos presentes na obra de Frank Herbert ao longo da jornada de Paul Atreides.

O fato é que Duna é um épico grandioso de ficção científica e um deslumbrante espetáculo visual. Depois de muitas tentativas frustradas, Denis Villeneuve finalmente consegue adaptar a obra original.

O cineasta apresenta ao público, ainda que superficialmente, um universo riquíssimo, com uma narrativa contemplativa e temáticas políticas, ecológicas, religiosas e filosóficas, elementos que fizeram dessa história, uma obra atemporal.

Duna
Imagem: Duna/ Reprodução

O longa é marcante, tanto para os fãs do livro quanto para os que chegaram agora, mostrando todo o potencial que essa história pode alcançar em suas sequências no cinema.

Contudo, existem alguns problemas que não podemos deixar de comentar, e um dos que mais incomoda, particularmente falando, é que não houve uma boa dosagem no desenvolvimento do próprio arco.

O roteiro, consegue criar a atmosfera ideal, mas o ritmo é muito lento, e isso com certeza atrapalha a imersão do público. Em diversos momentos temos a impressão de que a história não está indo pra lugar nenhum.

De fato, esta sensação é um tanto comum em primeiros capítulos, devido a grande quantidade de elementos que precisam ser inseridos na narrativa, mas aqui, a lentidão acabou prejudicando a experiência como um todo.

Além disso, apesar de boas atuações, os personagens parecem estar muito distantes um do outro, sendo que a interação entre eles é sempre deixada em segundo plano. Esse tipo de descaso pode ser fatal em uma história que depende de intrigas para seguir em frente.

O longa de Villeneuve, é sim, um grande feito para o cinema, no que se diz respeito à magnitude que o universo de Duna representa em quesitos audiovisuais, e nesse quesito não podemos negar que é grandioso e envolvente.

Esta primeira parte consegue cumprir o seu papel como uma introdução de algo muito maior que está por vir, mas ainda assim, não passa disso.

De fato, o filme não encontra o equilíbrio necessário entre a sua grandiosidade e o resultado de seu próprio arco, e tudo parece levar a um desfecho que não existe.

Infelizmente o ritmo lento e a sensação de estar faltando algo é um tanto quanto frustrante, diante do hype que foi construído em torno dessa produção. Com certeza essa não é a sensação que o público deveria ter no final de uma obra tão importante.

Ainda assim, já esperávamos que algo do tipo pudesse acontecer, uma vez que a obra de Frank Herbert se trata de um dos maiores desafios que um cineasta poderia se deparar em sua carreira.

Além da riqueza de detalhes e conceitos, a história lida com temas densos e linhas de pensamento que vão sendo expostas ao longo do enredo, até se condensar em algo gigantesco e maravilhoso.

Mas ainda assim, vale ressaltar que a segunda parte pode corrigir esse pequeno deslize, e encontrar um caminho que seja satisfatório, tanto para aqueles que já conhecem o material de origem, quanto para os que estão iniciando a imersão a partir dos filmes.

Uma coisa é certa, o potencial que existe em Duna é gigantesco, e uma boa parte dos conceitos que compõem o universo foram estabelecidos no primeiro longa.

A partir daqui, a franquia poderá focar nas bases que não foram construídas para entregar uma finalização que esteja à altura da importância desta grande história.

E aí cinéfilo, o que achou da nossa crítica de Duna? Tem um ponto de vista diferente?

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