Existem algumas produções quase mitológicas em Hollywood. São filmes anunciados há anos, com dezenas de boatos, confirmações de diretores, mudanças de equipe, quase cancelamentos…Assim, um desses filmes foi justamente Uncharted, uma adaptação da franquia que desde 2009 estava sendo cotada como próxima produção do ano.

Bom, mais de 10 anos depois, Uncharted: Fora do Mapa estreou nas telonas e vem a pergunta: valeu a espera ou a maldição dos filmes de jogos ataca novamente? Continue lendo para saber mais!

Sinopse

Nathan Drake (Tom Holland) é um jovem bartender em Nova York, com uma certa habilidade para pegar “emprestado” as carteiras dos seus clientes mais abastados. Assim, ele é encontrado por Victor “Sully” Sullivan (Mark Wahlberg), um veterano caçador de fortunas que trabalhava com o irmão de Nathan, Sam Drake (Rudy Pankow) na busca pela famosa cidade perdida de El Dorado, um dos maiores tesouros nunca encontrados.

Todavia, um grupo de mercenários a mando de Santiago Moncada (Antonio Banderas) também estavam em busca de El Dorado. Dessa forma, Nathan parte em busca de seu irmão e das grandes riquezas, lutando contra as forças de Moncada rumo ao desconhecido.

O roteiro e a (falta de) inspiração de Uncharted

Uncharted – Fora do Mapa – Reprodução Sony Pictures

Já que o filme se propõe a adaptar a história de uma das franquias mais bem sucedidas da Sony Playstation, nada mais justo do que começar a análise pelo seu roteiro.

Dessa forma, a primeira coisa que vem à cabeça ao assistir o filme é a polêmica frase de Martin Scorsese sobre os filmes da Marvel. Como assim? Scorsese declarou há um certo tempo que a Marvel “não é cinema, mas sim parques de diversão”. Polémicas à parte, o que ele quis dizer foi que os filmes de herói são cada vez mais pensados como uma diversão vazia em vez de um entretenimento com real conteúdo.

Uma adaptação medíocre

Apesar dessa declaração não servir para grande parte do MCU, ela encaixa perfeitamente em Uncharted: Fora do Mapa. Assim, a história do filme pega tudo que os jogos trouxeram e transforma em um resumão sem metade da emoção e originalidade das obras originais.

A origem de Nathan junto com seu irmão? Enquanto no quarto game representou a origem de um personagem já conhecido e icônico, no filme é apenas uma forma genérica de apresentar o protagonista e tentar dar uma motivação.

E o grande tesouro? Se você jogou qualquer um dos Uncharted, com certeza se arrepiou a cada nova pista encontrada, culminando na descoberta de algo absurdo e fenomenal. E no filme? Lá, é simplesmente… legal. Assim como seria legal em qualquer outro filme.

Essa sensação de “nem fede, nem cheira” permeia a obra, e é concentrada no personagem de Mark Wahlberg, o Sully sem bigode. Apesar de ter uma cena cômica no filme sobre o seu famoso pelo facial, a falta do bigode é só uma parte da total descaracterização de um excelente personagem.

Por fim, também não dá para esquecer dos vilões, pois tanto Antonio Banderas como Tati Gabrielle, que interpreta a chefe dos mercenários Jo Braddock, entram e saem de cena sem grandes destaques. Apesar disso, vale dizer que é muito interessante ver Banderas no papel de um vilão.

Filmografia e set-pieces: onde Uncharted realmente brilha

Se você gostou do filme e está odiando a crítica, tenha calma! Sabe o que falamos sobre a obra ser um parque de diversão? Isso tem um lado bom: Uncharted entrega uma filmografia divertidíssima.

Assim, apesar dos personagens não serem os mais cativantes do mundo, as cenas de ação são muito bem feitas e são o elemento mais próximo do que vemos nos jogos. Basicamente, o grande destaque vai para a mesma coisa que fez a franquia famosa no Playstation: as grandes set-pieces. O que seria isso?

Sequências saídas diretamente dos jogos

Reprodução – Sony Divulgação

Set-pieces nada mais são do que aquelas cenas de ação gigantescas, onde há algo absurdo acontecendo com o protagonista e o cenário ao seu redor. Como exemplo, lembre-se da excelente batalha contra Thanos em Titan, com todos aqueles efeitos incríveis.

Nos jogos, a franquia Uncharted quebrou paradigmas justamente por trazer grandes cenas de uma forma nunca antes vista nos jogos. Podemos listar ao menos dez momentos incríveis em que controlamos Drake: a cena do trem no segundo jogo, a fuga de jipe no último, a fuga do navio no terceiro…

Dentre todas, o filme resolveu adaptar aquela que é provavelmente a mais icônica: a briga dentro de um avião de carga, que termina com Drake pendurado pelos ares em cima de um deserto inóspito. Dessa forma, Tom Holland mostra toda sua capacidade física, realmente dando a emoção e sensação de perigo que o momento pede.

Claro, mais uma vez esbarramos na questão de que é melhor na obra original, mas isso não é tão forte nesse caso. Outras cenas, como a da cripta enchendo de água, dão o tom certo de aventura, lembrando bastante o divertido A Lenda do Tesouro Perdido, protagonizado por Nicolas Cage.

Um diretor experiente

Ruben Fleischer – Reprodução Wikimedia

Continuando nessa análise mais voltada para as partes técnicas, o diretor Ruben Fleischer é um velho conhecido de quem curte filmes de aventura. Suas duas obras principais fizeram bastante sucesso: Zumbilândia, estrelado por Jesse Eisenberg em 2011, e Venom, estrelado por Tom Hardy em 2018.

Desse modo, não podemos dizer que Fleischer é um diretor ruim. Sua forma de filmar, construção de cenas e condução da trama não é confusa e tão pouco peca de forma a atrapalhar o espectador. Todavia, também não dá para dizer que ele merece um Oscar de melhor diretor, já que parece ter feito um trabalho segundo as exatas diretrizes do estúdio.

Por isso, Uncharted tem aquela carinha de filme que você já viu em algum lugar, mas não lembra onde. O preocupante é que isso parece ser uma tendência em filmes baseados em jogos, conforme já aconteceu com Assassin’s Creed, Prince of Persia, Lara Croft: Tomb Raider (2018), Hitman: Agent 47, Need For Speed, Warcraft, Rampage… Isso só listando os que saíram nos últimos dez anos e não foram tão terríveis quanto Monster Hunter ou Resident Evil: Welcome to Racoon City.

Mas não é por não ser terrível que o filme seja excepcional. Em muitos momentos fica claro que a obra poderia ser mais ousada e entregar cenas mais exageradas, monumentais e de arrepiar, como vimos na franquia original.

Fotografia

A fotografia de Uncharted ficou por conta de Chung-hoon Chung. Pelo nome, talvez você não o conheça, mas seu currículo é pesado: trabalhou na pérola do cinema sul-coreano Oldboy, lá em 2003. Além dele, foi diretor de fotografia de diversos outros excelentes filmes em sua terra natal, além de obras como It e Última Noite em Soho.

Por isso, não dá para dizer que foi uma escolha ruim. Todavia, seguindo o tom geral do filme, Chung entrega um trabalho bem mediano, que lembra bastante os últimos Piratas do Caribe (Não os excelentes primeiros filmes, mas os que finalizaram a franquia.

Desse modo, não é um filme que você irá se recordar por possuir lindas cores ou uma montagem genial.

Uncharted deveria mesmo ter classificação indicativa de 12 anos?

No Brasil, a classificação indicativa de “Uncharted: Fora do Mapa” é de 12 anos, o equivalente ao PG-13 americano. Por conta disso, a ação do filme fica muito mais limitada do que nos jogos, onde há uma liberdade maior.

Dessa forma, enquanto em todos os games nós podemos atirar em centenas de npcs, algo que com certeza mostra que Nathan não é tão mocinho assim, no filme a coisa é totalmente diferente. Aqui, Nathan não é um atirador nato e sua pistola é praticamente para compor o traje, em vez de uma arma como é utilizada nos consoles.

E isso não é um detalhe menor. O perfil de Nathan é de um anti-herói, um malandro, alguém que salva pessoas quase na mesma proporção que comete crimes. Fazer dele um herói com altos valores, que não mata e não trapaceia, simplesmente tira grande parte da identidade que foi construída em toda a franquia. Pior que isso: claramente há um objetivo de aproximar o Nathan do atual Homem-Aranha, já que ambos são interpretados por Tom Holland.

Por esse motivo, Holland acaba entregando exatamente o que todo mundo esperava: um personagem que tem muito mais o jeito dele do que da figura que serviu de inspiração. Desse modo, é decepcionante ver que havia sim potencial para algo melhor, pois o próprio ator já entregou papéis bem distantes do seu herói genérico de aventuras. Por exemplo, nos elogiados Cherry: Inocência Perdida e O Diabo de Cada Dia.

Ah, e sobre a classificação indicativa: isso não é uma desculpa para não entregar momentos mais pesados. Basta ver como o recente The Batman e o mais antigo The Dark Knight mostram momentos super violentos e tensos, sem derramar uma única gota de sangue.

Trilha Sonora de Uncharted

Outro nome bem conhecido no mercado que está envolvido no filme é Ramin Djawadi, compositor germano-iraniano. Assim, ele ficou conhecido tanto por compor para o cinema quanto para o mundo de séries, se destacando em obras junto com Hans Zimmer (Piratas do Caribe, Homem de Ferro e outros) e também sozinho (Pacific Rim, Game of Thrones).

Além disso, já compôs para o mundo dos jogos, como em Gears of War 4 e 5. Por isso, pode ser considerado um compositor com experiência tanto em filmes de aventura, como no mundo dos jogos. E qual o resultado disso?

Nos desculpe por soar repetitivos, mas o resultado é algo bem esquecível. Claro, nas cenas de ação e nos momentos épicos, a música embala e ajuda o espectador a entrar no sentimento desejado. Entretanto, nem sequer chega perto do que Greg Edmonson fez nos 3 primeiros jogos e Henry Jackman fez no último lançamento.

Mais um ponto em que não é ruim, mas também não é tudo que podia ser e que já foi nas obras originais.

Antes da conclusão: por que adaptar Uncharted para o cinema?

Uncharted – Reprodução Meu Playstation

Percebeu como em diversos momentos da nossa análise falamos sobre como o filme não consegue se comparar ao que já foi entregue nos jogos? Assim, não é uma novidade em adaptações do gênero, sendo inclusive o maior problema de obras do tipo.

Por isso, a grande dúvida é se realmente é necessário trazer os jogos para outras mídias. Obras como Uncharted e Tomb Raider são intensamente baseadas em filmes, seja no grande clássico Indiana Jones ou em filmes recentes como o já citado Piratas do Caribe.

Inclusive, se destrincharmos vários elementos dos jogos Uncharted, veremos que mesmo os melhores ainda não são tão originais, com vários clichês e momentos típicos. O que realmente faz a diferença é a mídia em que a franquia foi feita. Os jogos permitem uma imersão muito maior do que qualquer outro meio, independentemente do tipo de obra apresentada.

Dessa maneira, controlar Nathan através de momentos insanos, pulando de aviões, trens, carros, cavalos e até barcos é uma coisa que faz qualquer pessoa nos controles vibrar de emoção. Mesmo nos momentos em que a história está mais calma, ainda é o jogador que descobre como resolver os quebra cabeças, escalar uma torre ou roubar uma cruz antiga.

Nos filmes, perde-se quase totalmente essa imersão, o que tira grande parte da magia que tais criações possuem. Por conta disso, muitas obras acabam sofrendo exatamente com o que “Uncharted: Fora do Mapa” sofre: um filme que nem é bom, nem ruim. E que será esquecido no momento em que você sair do cinema.

Conclusão

E aí, ficou com vontade de assistir Uncharted: Fora do Mapa? Sendo bem sinceros, nossa análise pode até não ter sido cheia de elogios, mas ele não é um filme horrível. Como uma aventura despretensiosa e cômica, você terá uma boa dose de diversão. Além disso, ele é perfeito para aquela tarde de domingo em que você só quer relaxar.

Entretanto, para os fãs dos jogos, não vá com altas expectativas. Afinal, tudo que está na obra já foi feito de forma muito melhor nos consoles, seja em sentido de história, ação, trilha sonora ou até mesmo nos próprios personagens. Se você não quer se decepcionar, espere para ver quando sair em algum streaming.

Carioca, estudante de Direito, servidora pública e apaixonada por vídeo games, tecnologia e cultura pop em geral. Tenho como hobbies consumir e produzir conteúdos relacionados a esses temas que me interessam, e adoro passar horas adquirindo conhecimento sobre os assuntos que mais gosto, tanto que mantenho um canal no Youtube sobre games há 4 anos. Meu contato com inglês vem de longa data, quando notei que para ter acesso a todo um universo de informações, dominar a língua era fundamental.
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