Ubisoft em Crise: o que está acontecendo dentro da gigante dos games

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A Ubisoft vive hoje o momento mais delicado de sua história moderna. A empresa que moldou franquias como Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six enfrenta uma combinação rara e perigosa de fatores: queda no valor de mercado, cancelamentos em massa, reestruturação agressiva, descontentamento interno e, agora, mobilização sindical com greve anunciada na França.

Não se trata de um tropeço isolado. Trata-se de um padrão.

Entenda o que está acontecendo

Nos últimos meses, a Ubisoft anunciou um plano de reorganização global com o objetivo de cortar centenas de milhões de euros em custos. Como consequência direta, a empresa cancelou projetos, fechou estúdios e dissolveu equipes. Assim, a reestruturação deixou de ser um plano abstrato e passou a afetar pessoas reais dentro da organização.

Em paralelo, a companhia propôs um programa de desligamento voluntário de até 200 funcionários em sua sede em Paris. Esse número representa quase um quinto da força de trabalho local. Portanto, o impacto não se limita a ajustes pontuais – trata-se de uma transformação profunda na estrutura interna.

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O problema, contudo, não está apenas nos cortes em si. O impacto emocional dentro da empresa também virou notícia. Afinal, o clima interno passou a refletir insegurança, frustração e desgaste constante.

Mensagens internas vazadas revelaram algo raro no discurso corporativo: funcionários afirmando sentir vergonha de trabalhar na Ubisoft. Para muitos, a empresa parece repetir erros estratégicos enquanto cobra sacrifícios de quem produz. Em outras palavras, a liderança transmite a sensação de que o peso da crise recai sempre sobre os mesmos ombros.

Esse ambiente de desgaste, por sua vez, abriu espaço para um movimento ainda maior. Sindicatos franceses organizaram uma greve entre 10 e 12 de fevereiro de 2026. O objetivo envolve protestar contra demissões, pressionar contra o retorno obrigatório ao presencial e questionar a forma como a reestruturação foi comunicada.

Além disso, o movimento busca apoio internacional, sinalizando que a crise da Ubisoft não se resume a números no balanço. Ela expõe, sobretudo, um problema cultural.

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Uma reestruturação que abalou o alicerce

A Ubisoft decidiu dividir sua produção em grandes unidades criativas, cada uma focada em um conjunto de franquias e gêneros. Na teoria, isso prometia agilidade. Na prática, a transição veio acompanhada de cancelamentos e encerramentos abruptos.

Estúdios como o de Halifax, no Canadá, fecharam as portas. Outros sofreram cortes discretamente. Ao mesmo tempo, jogos em desenvolvimento foram engavetados sem aviso público.

O mercado reagiu rápido. As ações despencaram, refletindo desconfiança dos investidores.

Para quem está dentro da empresa, o impacto foi ainda mais profundo. Muitos funcionários relataram que descobriram mudanças estruturais ao mesmo tempo que o público. Essa quebra de confiança corroeu o sentimento de pertencimento. Em vez de participação, houve surpresa. Em vez de diálogo, houve só um comunicado.

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A Ubisoft prometeu economizar cerca de 200 milhões de euros até 2026. Porém, a pergunta que ecoa nos corredores é simples: quanto dessa economia custa em talento, moral e identidade da empresa?

Funcionários entre a incerteza e a revolta

A crise deixou de ser abstrata quando se tornou pessoal. Desenvolvedores passaram a relatar medo constante de perder o emprego. Além disso, muitos sentem que a empresa perdeu clareza criativa.

Em mensagens internas, alguns compararam a liderança ao conceito de insanidade popularizado em Far Cry 3: repetir as mesmas decisões esperando resultados diferentes. Essa metáfora viralizou fora da empresa porque captura bem o momento. A Ubisoft tenta se reinventar usando ferramentas que já falharam.

A proposta de desligamento voluntário em Paris reforçou esse sentimento. Mesmo sendo opcional, o programa cria um ambiente de “livre e espontânea pressão”. Em estruturas corporativas, voluntário nem sempre significa livre. Para muitos, significa sair antes de ser obrigado (para não ficar feio).

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Sindicatos franceses apontam que a Ubisoft prioriza metas financeiras enquanto fragiliza a estabilidade dos trabalhadores. Além disso, criticam o retorno forçado ao trabalho presencial em um setor que provou funcionar remotamente durante anos.

Por isso, a greve se tornou inevitável. Ela não surge apenas dos cortes. Ela nasce da percepção de que a empresa se distancia de quem a construiu.

O que isso significa daqui em diante

A Ubisoft ainda possui marcas poderosas, equipes talentosas e capital criativo. Porém, confiança não se recompõe com só com planilhas. A empresa precisa provar que entende o valor humano por trás de cada projeto.

Franquias da Ubisoft

Do ponto de vista do mercado, o risco é claro. Perder talentos experientes compromete qualidade, prazos e inovação. Em uma indústria onde tecnologia e sensibilidade criativa caminham juntas, desgaste interno vira produto fraco no futuro.

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Esse efeito já começa a aparecer fora da Ubisoft. Um belo exemplo é o diretor criativo de Clair Obscur: Expedition 33, hoje eleito o melhor jogo do ano de 2026. Guillaume Broche é ex-funcionário da Ubisoft. Em vez de poder realizar sua visão dentro da empresa, precisou sair para criar algo realmente autoral em outro estúdio.

E não se trata de um caso isolado. Quando mentes criativas deixam uma gigante para encontrar liberdade em projetos menores, o recado é claro: algo se rompeu no centro. Grandes estúdios não morrem quando perdem dinheiro. Eles começam a morrer quando deixam de ser o lugar onde as boas ideias podem se realizar.

Para os jogadores, a crise levanta dúvidas legítimas. Projetos cancelados, como o Remake de Prince of Persia, hoje não viram lançamentos amanhã. Além disso, franquias podem entrar em modo automático, repetindo fórmulas por “segurança financeira”.

A Ubisoft construiu sua identidade apostando em mundos abertos, experimentação histórica e escala ambiciosa. Agora, precisa reconstruir algo mais básico: confiança interna e dos jogadores.

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Empresas sobrevivem a ciclos ruins. No entanto, poucas sobrevivem à perda de propósito e essência. O que está em jogo não é apenas o próximo Assassin’s Creed. É o tipo de estúdio que a Ubisoft quer ser na próxima década.

FONTE: Kotaku

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