Rango
Rango/Trailer - Imagem: Paramount Pictures

Rango acompanha a jornada de um camaleão-do-Iêmen doméstico, que vive inventando personagens para fugir da monotonia do terrário. Tudo muda quando ele é acidentalmente arremessado para fora do carro de seus donos e acaba perdido no árido Deserto de Mojave. 

Desorientado, cruza com o tatu eremita Roadkill, que menciona a existência de uma cidade chamada Dirt, povoada por animais e assolada por uma misteriosa escassez de água. Sem alternativa, o camaleão parte em direção ao local e, após sobreviver ao ataque de um gavião, encontra Beans, uma iguana desconfiada que o conduz até a cidade.

Em Dirt, questionado sobre sua identidade, o camaleão improvisa e assume o nome “Rango”, apresentando-se como um forasteiro durão. Sua fanfarronice chama atenção e o coloca em conflito com o fora da lei Bad Bill. O duelo é interrompido pelo gavião, que acaba sendo esmagado quando Rango derruba acidentalmente uma caixa d’água. Confundindo coincidência com bravura, os habitantes o celebram como herói, e o prefeito, uma velha tartaruga, o nomeia xerife. Contudo, esse feito desperta o medo de que o pistoleiro Rattlesnake Jake retorne.

Buscando enfrentar a seca, Rango investiga o desaparecimento da água e inadvertidamente ajuda ladrões a roubá-la. Quando descobre um complô maior, percebe que o prefeito está manipulando o abastecimento para controlar a cidade e lucrar com terras desvalorizadas. Expulso após ser desmascarado por Jake, Rango encontra o enigmático Espírito do Oeste, que o encoraja a assumir sua verdadeira história.

Reconhecendo sua responsabilidade, Rango retorna com aliados e confronta o prefeito e Jake. Após uma virada estratégica, ele salva Beans, restaura o fluxo de água e prova sua coragem genuína. Jake, impressionado, leva o prefeito para um destino merecido, enquanto Dirt comemora seu novo herói: Rango, agora não mais um impostor, mas alguém que conquistou seu lugar.

Direção de Rango

A direção de Rango, conduzida pelo diretor Gore Verbinski, se destaca em mesclar humor, drama, e ação. O diretor é conhecido por ter dirigido grandes sucessos como, por exemplo, Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra, O Cavaleiro Solitário e “O Chamado”. Em suma, a identidade visual que o cineasta projetou nessa animação é predominantemente composta por duelos, paisagens desérticas, e pubs cheios de malfeitores. A estética Western, presentes em produções populares como Firefly, A Balada de Buster Scruggs, Django, e clássicos como Stagecoach (1939), foi representada muito bem nessa animação.

Um dos elementos que mais se destacam e representam bem essa estética, é a cidade de Dirt traduz o Western em Rango: arquitetura poeirenta, saloon central, xerife frágil, duelos públicos e deserto hostil, revelando poder pela reputação e sobrevivência na fronteira.

Além disso, a dublagem de Rango ficou excepcional. O diretor propôs ao elenco usar figurinos semelhantes ao de seus personagens, possivelmente muito do que vemos na dublagem em inglês é fruto do trabalho focado em imergir ao máximo o elenco na temática do velho oeste.

Assim, Rango vai além de uma simples animação ao transformar referências clássicas em narrativa viva, onde estilo, atmosfera e performance constroem um universo coeso. O resultado é uma obra que revisita o faroeste com frescor, criatividade e personalidade marcante.

Em que foi baseado o Rango?

Rango combina spaghetti western (Leone/Eastwood), revisionismo moral (Os Imperdoáveis), surrealismo metaficcional, design realista de criaturas de Mark “Crash” McCreery e trama noir: cidade em seca, prefeito corrupto e conspiração. É uma jornada espiritual onde um ator interpreta o herói até se tornar um.

Rango ecoa Django na cidade decadente, no herói performativo e no vilão mítico, mas sua base estética vem do spaghetti western, especialmente Sergio Leone: enquadramentos largos, moralidade cinza e o anti-herói que se transforma em lenda. Django é influência parcial, não matriz central.

Concepts de Rango

A direção visual inicial de Rango ficou a cargo de Mark “Crash” McCreery, responsável pelos primeiros designs e pela estética híbrida realista dos animais. A equipe expandiu esse núcleo com Eugene Yelchin (proporções caricaturais), Bárbara Fulk (figurinos/props Western) e artistas de storyboard, formando um mundo coerente de faroeste.

Há um Artbook oficial do filme mostrando mais a fundo todo trabalho de desenho e formulação de conceitos, desse filme, na Amazon. Porém, é uma compra internacional, então o livro custa mais de 1000 reais atualmente. Nesse livro, David S. Cohen entrevista a equipe de designers, mostra storyboards, e entrevista Verbinski. Particularmente, o conceito e criação de personagens é uma das mais importantes fases de produção de um filme animado, foi isso que tornou “Rango” tão interessante visualmente, sendo assim um dos pontos mais fortes da obra.

Melhores cenas de Rango

Rango teve uma ótima direção de arte e uma construção narrativa envolvente. Por resultado, há no filme, diversas cenas alucinantes e introspectivas, que nos convidam a refletir e ao mesmo tempo nos distrai. Algumas das melhores cenas dessa obra inclui:

O monstro colossal: Quando a água da cidade é roubada, Rango e os civis entram pelo mesmo caminho por onde os ladrões fugiram, o subsolo. Em determinado momento todos são clareados por um gigantesco olho amarelo, brilhando como uma lua cheia. O contraste entre os tons do olho gigante atrás dos habitantes da cidade apontam o pensamento criativo e diferente por trás da cinematografia.

A última gota de água: Na cena da recuperação do galão de água, a ação ocorre em um cenário bizarro e caótico, com personagens montando morcegos e movimentos imprevisíveis. Verbinski estabelece um ritmo balanceado ao alternar momentos de tensão e pausas visuais, resultando em uma sequência intensa, envolvente e sempre clara, na qual ação e humor coexistem sem causar confusão no espectador.

O Heroi e o Fora da Lei: No embate final, o diálogo contido e ameaçador de Jake gera tensão por meio do silêncio e da presença. Rango, anteriormente um personagem que simulava heroísmo, age de forma consciente e estratégica. A cena representa sua transformação final: ele deixa de interpretar um herói e começa a ser um.

Em resumo, “Rango” se sobressai ao combinar uma linguagem cinematográfica madura, uma direção firme e uma identidade visual marcante. Gore Verbinski converte a animação em uma análise de gênero e personagem, empregando ritmo, enquadramento e simbolismo para criar uma obra que transcende o mero entretenimento e destaca sua potência autoral.

Orçamento e bilheteria

De fato, a grande qualidade visual de Rango, também é reflexo do orçamento robusto, estimado em US$ 135 milhões. O filme arrecadou pouco mais de US$ 245 milhões nas bilheterias mundiais. Rango adotou estética de faroeste e narrativa adulta, distanciando-se do padrão infantil de animação. Essa abordagem introspectiva e referencial reduziu o apelo familiar, mas conquistou forte recepção crítica e boa reputação entre cinéfilos. 

Essa animação foi lançada em um bom período, filmes com pouco ou nenhum apelo disputaram a atenção do público. Por exemplo, Os Agentes do Destino, A Fera e Passe Livre não eram grandes  blockbusters e estavam em cartaz naquele período. Assim podemos concluir que Rango teve um desempenho comercial bem ruim.

Crítica

Logo nos primeiros dias de estreia, Rango foi bem recepcionado pela crítica. Muitos críticos apontaram a execução do diretor em construir uma animação bem estilizada e uma trama envolvente e engraçada. Apesar da animação apresentar diversas referências a obras clássicas como Django (1966), o enredo não demanda que o público tenha os clássicos em mente. Por isso, o filme conseguiu cativar tanto os mais velhos quanto os juvenis. 

Isso perdura até os dias de hoje, pois o filme trata de temas maduros como comportamento da sociedade, coronelismo e ética. Por exemplo, podemos ver o reflexo desse sucesso em portais de crítica como o IMDB, onde essa animação alcançou 7.3/10 estrelas em uma escala impressionante de 314 mil classificações.

Por que não houve uma sequência?

Não houve um anúncio oficial do estúdio a respeito do cancelamento de *Rango 2*, porém declarações públicas sugerem que o motivo principal foi de natureza criativa. Gore Verbinski declarou que não pretende fazer uma sequência, focando-se em projetos originais. Fatores práticos, como a falta de disponibilidade de Johnny Depp, também tiveram um papel. Portanto, a falta de uma continuação é mais uma questão de escolhas artísticas do que de insucesso comercial.

Trilha sonora de Rango

A trilha sonora de Rango, composta por diferentes músicos mas principalmente por Hans Zimmer, é um dos pontos mais envolventes da obra. Em suma, cada faixa reforça ainda mais a identidade do velho oeste no méxico, como por exemplo a música “Welcome Amigo” composta por Rick Garcia. Essa musica é cantada em cantada em espanhol, o que soa “mexicano” é o registro cultural: pronúncia, ritmo, expressões e a estética mariachi.

As faixas compostas por Hans Zimmer apesar de apresentarem um tom bem orquestral não se distancia tanto do estilo do filme. Podemos destacar a faixa “Rango Suite” para ilustrar melhor isso. Em “Rango Suite”, Hans Zimmer usa uma orquestra robusta sem recorrer ao épico tradicional. A composição mantém pausas, aspereza e referências ao spaghetti western, comentando o mito do herói com ironia. Assim, o peso orquestral reforça, e não rompe, a identidade árida e estilizada do filme. Por se mostrar coerente e espontânea, a trilha sonora de Rango é um dos pontos mais fortes da obra.

Conclusão

Do ponto de vista técnico, Rango se destaca como uma animação de elevado rigor formal, em que direção, design de personagens, trilha sonora e linguagem cinematográfica funcionam de forma integrada. O filme exibe um controle consciente de enquadramentos, ritmo, som e composição visual, empregando os códigos do Western não apenas como uma referência gratuita, mas como uma base para sua narrativa e estética. 

Essa exatidão técnica reforça a proposta autoral do filme, possibilitando a coexistência de humor, drama e metalinguagem sem prejudicar a coerência do todo. Além disso, coloca Rango como uma animação rara que prioriza o pensamento sobre cinema em vez de gênero. Não à toa, Rango conquistou o Oscar na categoria de melhor animação no ano de 2012. Até a próxima!

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