O Iluminado acompanha Jack Torrance, um escritor em busca de recomeço que aceita o emprego de zelador de inverno no isolado Hotel Overlook, localizado nas Montanhas Rochosas do Colorado. Ele se muda para lá com a esposa Wendy e o filho Danny, que possui dons telepáticos conhecidos como “o brilho”. Antes de partir, o cozinheiro do hotel, Dick Hallorann, adverte Danny sobre os perigos sobrenaturais do lugar e o proíbe de se aproximar do misterioso quarto 237.
Com o isolamento e o passar dos dias, a sanidade de Jack começa a se deteriorar. Ele sofre com bloqueio criativo, tem pesadelos violentos e passa a ver fantasmas de antigos hóspedes, incluindo Delbert Grady, o zelador que assassinou sua família anos antes. Grady o convence a “corrigir” sua esposa e seu filho. Enquanto isso, Danny começa a ter visões perturbadoras e é atacado por uma presença invisível no quarto 237, o que desperta o desespero de Wendy.
Ao descobrir que Jack escreveu páginas repetindo apenas a frase “Só trabalho e nada de diversão faz de Jack um rapaz cansado”, Wendy percebe sua completa loucura. Ela o acerta com um taco e o tranca na dispensa, mas ele é misteriosamente libertado, possivelmente por forças sobrenaturais.
Jack, armado com um machado, inicia uma perseguição brutal pela vida da esposa e do filho. Hallorann retorna ao hotel após sentir o pedido de socorro de Danny, mas é assassinado por Jack. Danny foge para o labirinto de sebes, conseguindo enganar o pai e escapar com Wendy no veículo de Hallorann, enquanto Jack morre congelado no labirinto.
Na cena final, uma fotografia antiga mostra Jack em uma festa de 1921, sugerindo que ele sempre fez parte do Overlook Hotel, reforçando o mistério e a sensação de ciclo eterno que definem o terror psicológico de O Iluminado.
Direção de O Iluminado
A direção do filme foi conduzida por Stanley Kubrick, um diretor que, desde a década de 50, construiu sua carreira na indústria cinematográfica. O diretor esteve à frente de filmes bem populares como “Laranja Mecânica” e “2001 uma Odisseia no Espaço”. Em suma, os principais elementos que marcam a sua identidade como diretor é o perfeccionismo e a constante presença de elementos enigmáticos em seus filmes. Podemos ver essas duas coisas presentes durante todo momento do filme.
Por exemplo, quando Jack Torrance (Jack Nicholson), trancado na dispensa após ser golpeado por Wendy, começa a dialogar com uma voz incorpórea. Aparentemente essa voz, é a do fantasma de Delbert Grady, o antigo zelador do hotel que matou a própria família. Durante o diálogo, Jack é repreendido por “não cumprir sua missão” e é instigado a corrigir “sua esposa e seu filho”. Em seguida, ouvimos o som da tranca sendo girada e a porta se abrindo sozinha, libertando Jack.
A sequência destacada ilustra bem o caráter indecifrável que o diretor Stanley Kubrick gostaria de implementar em seus filmes. Se o hotel é realmente assombrado, então a cena prova a presença física de forças sobrenaturais, pois uma porta real foi destrancada por uma entidade. Se tudo é uma manifestação da loucura de Jack, o filme estaria nos mostrando a realidade subjetiva dele, e o ato de a porta abrir poderia ter sido feito por alguém vivo (Danny ou Dick) sem que percebêssemos, ou até ser uma ilusão narrativa construída pela mente deteriorada do personagem.
Assim, O Iluminado transcende o gênero de terror ao explorar a fronteira entre realidade e delírio, convidando o espectador a decifrar um enigma psicológico cuidadosamente arquitetado por Kubrick.
Em que foi baseado esse filme?
O Iluminado é baseado no livro homônimo de Stephen King (1977). King é um dos maiores contadores de histórias de terror. Sucessos literários como “IT: A Coisa”, “O Nevoeiro”, e “Carrie: A Estranha”, são provas de seu talentos. que foi inspirado por sua estadia no isolado Stanley Hotel, localizado no Colorado. A obra trata de questões como alcoolismo e loucura. Na versão adaptada por Stanley Kubrick (1980), a atenção se volta para a ambiguidade psicológica, transformando o terror em algo mais simbólico e passível de interpretação.
Lançado em 1977, O Iluminado tornou-se um bestseller imediato, figurando nas listas do The New York Times e consolidando Stephen King como mestre do terror. Embora não tenha vencido prêmios literários importantes na época, o livro ganhou reconhecimento duradouro como uma das obras mais influentes do horror moderno.
Diferenças entre o filme e o livro
O Iluminado foi um filme bem polêmico, sobretudo porque desagradou o autor da história original. O filme tem o estilo único do diretor Kubrick, e para chegar nesse resultado várias decisões, divergentes da obra original, foram tomadas. Por exemplo, no livro não há um labirinto de sebes, o diretor trouxe isso como uma inovação exclusiva para o filme. Isso serviu como uma alegoria inteligente em que o labirinto representa a mente do próprio Jack e como ele vai se perdendo cada vez mais na própria insanidade. Algumas das outras mudanças inclui:
Wendy, a esposa: No romance, Wendy é uma mulher forte e protetora; no filme, ela é retratada como emocionalmente frágil e submissa. Essa mudança virou alvo do próprio Stephen King.
“O sobrenatural existe?”: No livro, o hotel é claramente um ser maligno e consciente, manipulando Jack. No filme, Kubrick deixa tudo ambíguo, sem confirmar se há fantasmas reais ou apenas a loucura de Jack.
“Jack não é tão mal?”: O romance termina com o hotel explodindo após o superaquecimento da caldeira. Ainda no livro, como um último ato Jack manda Wendy e Danny fugirem, enquanto ele fica para a explosão mostrando que de alguma forma ele queria se redimir. No filme, o hotel permanece intacto, e a última cena mostra Jack congelado no labirinto, sugerindo um ciclo eterno de possessão.
Essas diferenças mostram como O Iluminado, sob a direção de Kubrick, transcende a simples adaptação e se transforma em uma obra autoral, mais voltada ao simbolismo e à psicologia do que ao horror sobrenatural. O resultado é um filme único, que divide opiniões, mas continua a ser debatido e reinterpretado até hoje.
Orçamento e bilheteria
Com um orçamento de cerca de US$ 19 milhões, O Iluminado arrecadou aproximadamente US$ 80 milhões mundialmente. Embora tenha gerado lucro, seu desempenho inicial foi moderado diante das expectativas. O público se dividiu quanto à narrativa e ao ritmo, mas, com o tempo, o filme conquistou status de clássico cult e reconhecimento como uma das obras mais marcantes de Kubrick.
Ele estreou primeiro nos Estados Unidos, em 23 de maio de 1980, com distribuição pela Warner Bros. O lançamento internacional foi sendo feito de forma gradual, nos meses seguintes, variando conforme o país. Por exemplo, no Reino Unido, estreou apenas em outubro de 1980, e em outros mercados, como o Japão e parte da Europa, chegou até 1981.
Crítica
Se por um lado, a ambiguidade dá margem para incrementar elementos ricos em significado. Por outro, com significados complexos e sutis, torna “O Iluminado” difícil de processar. Por exemplo, na cena do homem fantasiado de cachorro com outro de smoking, Kubrick cria um momento de horror enigmático e sem explicação direta. A imagem sugere decadência moral e submissão, revelando o poder corruptor do hotel. Sua ambiguidade extrema simboliza a fusão entre loucura, desejo e assombrações, núcleo da complexidade de “O Iluminado”.
Na época, esse modo pouco palatável do diretor expressar sua narrativa foi bem criticado. Muitos espectadores e críticos ficaram confusos e frustrados com o ritmo lento, o tom enigmático e as mudanças em relação ao livro de Stephen King, que, aliás, criticou duramente o filme, King, definiu a adaptação como fria e sem alma. Alguns acharam a atuação de Jack Nicholson exagerada e o final inconclusivo.
Porém com o passar do tempo o valor de O Iluminado cresceu bastante até se tornar uma adaptação aclamada do cinema cult. Atualmente, essa adaptação alcançou 8.4/10 estrelas em uma escala inacreditável de 1.2 milhões de votos no IMDB. No Rotten Tomatoes, essa obra alcançou 93% de aprovação em uma escala de mais de 250 mil classificações. Assim, O Iluminado se tornou uma das adaptações cinematográficas com maior impacto cultural na cultura pop.
Impacto cultural de O Iluminado
“O Iluminado” ganhou cada vez mais destaque no entretenimento ao longo dos anos. Prova disso, são as inúmeras referências feitas a esse filme em outras obras como filmes, séries, e programas de TV. Por exemplo, “Os Simpsons” – o episódio “Treehouse of Horror V” (1994) parodia o filme quase cena a cena, com Homer no papel de Jack, Marge como Wendy e Bart como Danny. É uma das referências mais icônicas. Algumas das outras referências sobre esse filme inclui:
Family Guy (Uma Família da Pesada): Várias menções ao longo da série, mas especialmente na cena em que Stewie recria o corredor das gêmeas e o “Here ‘s Johnny!”.
Incrivel Mundo de Gumball – The Castle: No episódio “The Castle” de O Incrível Mundo de Gumball, Richard Watterson paródia O Iluminado ao fingir surtar e perseguir os filhos pela casa, recriando a icônica cena de Jack Torrance com enquadramentos e falas semelhantes. A sequência transforma o terror original em humor, homenageando o clássico de Kubrick.
O Aviador (2004): A referência ao quarto 217 remete ao livro original de O Iluminado, enquanto o filme de Kubrick popularizou o quarto 237 para evitar assustar hóspedes do Stanley Hotel. Assim, menções ao 217 funcionam como easter eggs literários, conectando o romance de King à icônica simbologia do filme.
Essas referências demonstram como O Iluminado ultrapassou as fronteiras do cinema, exercendo influência sobre diversas mídias e gêneros. Sua estética, cenas inesquecíveis e simbolismo duradouro possibilitam interpretações criativas. Essa identidade visual, solidificou o filme como um marco cultural que segue inspirando paródias, tributos e referências em obras populares ao redor do globo.
Cena deletada do filme
Na versão original de O Iluminado, exibida nos cinemas em 1980, a morte de Dick Hallorann é rápida e brutal: ao chegar ao Overlook para salvar Wendy e Danny, ele é surpreendido por Jack, que o atinge no peito com um golpe de machado, matando-o instantaneamente. Mas na versão mais atual da HBO Max, essa cena foi cortada.
Além disso, havia outra cena deletada posterior à morte de Jack, mostrando Wendy e Danny em um hospital, recebendo a visita do gerente do hotel, Stuart Ullman, que afirma que o corpo de Jack nunca foi encontrado, reforçando o mistério do desfecho. Ainda nessa cena, Ullman entregaria a Danny a mesma bola de tênis que Jack usou para se distrair no início do filme, e fala que não encontraram nada de anormal no hotel. Kubrick mandou retirar essa sequência poucos dias após a estreia, acreditando que enfraquecia o impacto da cena final da fotografia de 1921.
Trilha sonora de O Iluminado
A trilha sonora de O Iluminado combina música clássica e experimental de Penderecki, Ligeti, Bartók e Wendy Carlos. Com sons dissonantes, coros inquietantes e ruídos graves, ela cria uma atmosfera constante de tensão e medo. Esses elementos, intensificam o terror psicológico e o sentimento de isolamento no Hotel Overlook.
A faixa “Rocky Mountains”, de Wendy Carlos e Rachel Elkind, combina sintetizadores e coros sombrios para transformar as paisagens do Hotel Overlook em algo inquietante. Sua atmosfera eletrônica e dissonante antecipa o terror psicológico do filme. Essa faixa, simboliza o isolamento e a instabilidade mental que dominam os personagens ao longo da narrativa. Por fim, a trilha sonora de “O Iluminado” tem um peso enorme para a narrativa. Com sons metálicos e inquietante, somos imergidos em uma das histórias mais tenebrosas do cinema.
Conclusão
O romance homônimo, escrito por Stephen King, que inspirou o filme O Iluminado, tem um foco muito mais voltado para a família e os dilemas humanos do que para o terror psicológico. A obra literária mergulha na fragilidade emocional de Jack Torrance, em sua luta contra o alcoolismo e no amor distorcido que sente pela esposa e pelo filho. Apesar de não possuir a mesma complexidade simbólica e ambiguidade interpretativa do filme, o livro transmite uma carga emocional profunda, explorando culpa, arrependimento e a destruição de um homem comum pela influência do mal.
Por isso, muitos leitores ficaram decepcionados com a frieza e a distância emocional da adaptação cinematográfica. Ainda assim, é inegável que, se a visão excêntrica, fria e enigmática de Stanley Kubrick não tivesse sido executada com tanta liberdade artística, O Iluminado dificilmente teria se tornado um dos filmes mais icônicos e influentes da história do cinema. Até a próxima!

















