Análise | A Colina  Escarlate

A Colina Escarlate
A Colina Escarlate/Teaser - Imagem: Universal Pictures

Em 1887, em Buffalo, a jovem Edith Cushing recebe a visita do espírito de sua mãe, que a adverte: “Cuidado com o Pico Carmesim”. Anos mais tarde, como adulta e aspirante a escritora, Edith encontra Sir Thomas Sharpe e sua irmã Lucille. Thomas procura suporte financeiro para sua criação, porém o pai de Edith rejeita. Mesmo assim, os dois se aproximam, o que faz com que o Sr. Cushing a investigar os irmãos. 

Ao descobrir segredos obscuros, ele tenta proteger a filha, mas acaba sendo brutalmente assassinado. Em seguida, Thomas casa-se com Edith e a leva para a mansão Allerdale Hall, na Inglaterra. A construção em ruínas está situada sobre minas de argila vermelha, que colorem a neve e dão origem ao nome “Colina Escarlate”.

Na mansão, Edith começa a ser perturbada por fantasmas distorcidos e aterrorizantes. Durante as aparições, ela encontra documentos e gravações que desvendam a verdade: Thomas havia se casado com outras mulheres ricas, todas vítimas de envenenamento por Lucille. Edith também descobre que Lucille matou sua própria mãe e as esposas anteriores, além de ter um relacionamento incestuoso com os irmãos.

Quando o amigo de infância de Edith, Dr. Alan tenta salvá-la, mas é gravemente ferido. Thomas, por outro lado, poupa sua vida, demonstrando um verdadeiro carinho pela esposa. A tensão atinge seu ápice quando Lucille, tomada pela ira, assassina Thomas e parte para matar Edith. Em uma batalha angustiante nos jardins manchados de vermelho, Edith conta com a ajuda do espírito de Thomas e consegue eliminar Lucille.

No desfecho, Edith é salva junto a Alan e retorna para escrever seu livro, A Colina Escarlate, enquanto o espírito de Lucille permanece preso à mansão, tocando piano eternamente.

Direção de A Colina Escarlate

A Colina Escarlate foi dirigida por Guillermo Del Toro, o mesmo diretor de “O Labirinto do Fauno”, “Pinóquio” e “Forma da Água”. O diretor possui traços marcantes que sempre acompanham seus filmes, como o uso de efeitos especiais práticos, explora figurinos memoráveis, e suas obras sempre desafiam o espectador a refletir e pensar sobre mensagens subliminares.

Uma das coisa mais chamativas da identidade visual do cineasta, em “A Colina Escarlate”, é fazer com que a linguagem corporal dos atores sejam expressivas e teatrais. Um exemplo disso é Sharpe, com uma postura ereta, falas eruditas, e movimentos engessados. Além disso, nesse filme há muitas escolhas ousadas. Por exemplo,  Del Toro, optou por usar transições, Íris Out, quando a tela vai escurecendo e sobra apenas um círculo em volta de parte da cena, que vai diminuindo até fechar completamente. 

O uso de Íris Out, parece ser uma tentativa de se aproximar de produções cinematográficas antigas, como “O Nascimento de uma Nação”, “O Gabinete do Dr. Caligari”, e filmes de Charlie Chaplin. Acima de tudo, “A Colina Escarlate”é um filme de terror, e o timing das cenas de sustos se mostra preciso. 

Por exemplo, quando a jovem Edith se depara com o fantasma de sua mãe: o silêncio e a espera geram tensão até que a mão espectral aparece de forma súbita. Isso evidencia a preferência de Del Toro por sustos baseados na expectativa em vez de choques desnecessários. Podemos concluir que a direção de “A Colina Escarlate”, foi incrível, uma das melhores da carreira de Guillermo Del Toro.

Em que foi baseado A Colina Escarlate?

A princípio, “A Colina Escarlate” é uma história original, criada por Guillermo Del Toro. Além disso, o roteiro desse filme foi escrito pelo cineasta, em parceria com o roteirista Matthew Robbins. Apesar de não se basear em um romance específico, vários elementos do filme indicam fontes de inspirações. 

Por exemplo, a atmosfera sombria e a existência de uma mansão afastada fazem alusão a Jane Eyre, de Charlotte Brontë, ao passo que o mistério envolvendo segredos familiares reflete a tradição de Rebecca, de Daphne du Maurier. 

Também se pode notar a influência de Edgar Allan Poe na abordagem da decadência, do macabro e da obsessão, bem como conexões com A Volta do Parafuso, de Henry James, no emprego de fantasmas que circulam entre o real e o simbólico.

A história de “A Colina Escarlate” é fascinante por conta de sua linguagem poética, estética clássica, e personagens bem desenvolvidos. Além disso, temas profundos como amor, obsessão e amargura também são trabalhados de maneira extraordinária.

Melhores cenas do filme

“A Colina Escarlate” apresenta vários momentos incríveis que mostram maestria de composição visual. Por exemplo, quando Edith sonham que estão nos vastos campos da colina, e longe avistou uma figura necrótica, vermelha escura, apontando para a esquerda, como se quisesse mostrar algo. Em todos os filmes vemos que o personagem principal tem um contraste e se destaca com relação ao cenário. Todas composições possibilitaram cenas lindas, e algumas delas incluem:

O fantasma vermelho: Uma das cenas mais memoráveis de A Colina Escarlate ocorre quando o espírito vermelho atormenta Edith. Em um corredor sombrio, a figura espectral aparece entre as sombras e paredes manchadas de sangue, deslocando-se com uma elegância macabra. A tensão aumenta gradualmente, e o susto final mescla surpresa, clima gótico e o terror psicológico que caracteriza o filme.

Pia de mármore: O pai de Edith, brutalmente assassinado em um vestiário, teve sua cabeça esmagada contra a pia de mármore. A cena, crua e impactante, elimina sua proteção e abre caminho para a manipulação de Edith pelos irmãos Sharpe.

A iluminada: No auge de A Colina Escarlate, Edith confronta Lucille e Thomas na decadente Allerdale Hall, resultando em um massacre sangrento. Corredores sombrios e paredes manchadas de sangue intensificam o terror psicológico, evocando a sensação de claustrofobia de O Iluminado, no qual a mansão atua quase como um personagem vivo, aumentando o suspense e o horror.

A Colina Escarlate é um filme que instiga a criatividade do espectador e o desafia a resolver os mistérios, entregando pequenas dicas sobre o desfecho. Um exemplo disso são as cartas do baronete Sharpe. A soma de todos esses fatores cativam e nos prende durante todo o filme.

Orçamento e bilheteria  do filme

“A Colina Escarlate”custou US$ 55 milhões, e arrecadou apenas US$ 74 milhões. Querendo ou não, misturar gêneros gótico, terror, e romance, em um, tornou o filme bastante inchado. A obra se mostrou pouco palatável ao grande público. Algo que reforça isso, é a avaliação baixa do filme nas grandes plataformas de crítica. 

Embora a bilheteira não tenha sido muito movimentada, o filme ganhou destaque por sua estética singular. A direção de arte, o figurino e a cenografia receberam muitos elogios, resultando em indicações e prêmios técnicos que reforçaram sua força visual. Esses elementos, combinados com a assinatura autoral de Guillermo del Toro, acabaram se transformando em seu principal legado, possibilitando que o filme adquirisse, ao longo do tempo, o status de obra cult no gênero gótico, especialmente entre cinéfilos e admiradores de narrativas estilizadas.

Trilha sonora de A Colina Escarlate

A trilha sonora de A Colina Escarlate, foi composta por Fernando Velázquez. O músico espanhol se tornou conhecido por suas composições recorrente em filmes de suspense e terror. Alguns de seus principais trabalhos incluem, “O Orfanato”, “A Pele que Habito” e “Mama”. O álbum de “A Colina Escarlate”, é um dos melhores elementos do filme, não porque apresenta faixas extravagantes e inovadoras, mas sim por ser coerente com a proposta do filme.

“Valse Sur Une Berceuse Anglaise”: uma valsa clássica para celebrar o encontro inaugural de dança entre Edith e Thomas. É sofisticada, íntima e tocante, realça o romance e o cenário histórico, ligando-se à trama de maneira sutil e natural. Quando Edith entra pela primeira vez no casarão, sons de instrumentos de arco realçam a grandiosidade do lugar. Portanto, a trilha sonora dessa obra contribui muito para nos imergir na trama.

Conclusão

Dois irmãos maltratados em um casarão nada amigável, um pai violento, uma mãe ríspida. Além disso,  as paredes tomadas por mofo, as mariposas infestando toda a madeira, a umidade degradando todo o assoalho, acusa a infância difícil dos irmãos Sharpen. O ódio guardado dentro de cada um é evidente, e motivou eles a cometerem atos abomináveis. 

Por exemplo, no último ato, Lucille pega a mesma lâmina que foi cravada na cabeça de Enola. O ritmo das revelações instiga mais e mais dúvida no espectador. Porém, todos os elementos como cartaz, manifestações sobrenaturais, e manipulações se conectam de maneira clara no final. Em última análise, a Colina Escarlate equilibra roteiro, cenografia e direção de arte exuberantes, que resultaram em uma das melhores produções goianas já lançadas no cinema. Até a próxima!

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