O Menino e a Garça se passa durante a Segunda Guerra Mundial. O jovem Mahito Maki perde a mãe, Hisako, que morre em um incêndio provocado pela guerra. Algum tempo depois, seu pai, Shoichi, casa-se com Natsuko, irmã mais nova de sua falecida esposa, e os dois deixam Tóquio para viver em uma propriedade rural. Grávida, Natsuko tenta se aproximar de Mahito, mas ele permanece distante, incapaz de aceita-la.
Na nova casa, Mahito passa a ser seguido por uma misteriosa garça-cinza, que parece possuir inteligência humana. O pássaro o conduz até uma antiga torre construída pelo tio-avô de Natsuko, um homem excêntrico que desapareceu misteriosamente. Quando Natsuko também desaparece, Mahito entra na torre acompanhado por Kiriko, uma das antigas criadas da família. Lá, ele encontra um mundo fantástico, habitado por criaturas incomuns e governado por regras próprias.
Neste lugar, Mahito conhece uma jovem chamada Himi, que possui poderes relacionados ao fogo, além de uma versão mais jovem de Kiriko. Ele também descobre que pequenas criaturas chamadas Warawara precisam atravessar aquele mundo para nascer no mundo humano. Ao mesmo tempo, pelicanos e enormes periquitos antropomórficos ameaçam essas criaturas.
Enquanto procura Natsuko, Mahito descobre que Himi é, na verdade, sua mãe quando jovem. Ele também encontra seu tio-avô, responsável por manter aquele mundo em equilíbrio através de misteriosos blocos de pedra. O homem oferece a Mahito a possibilidade de assumir seu lugar e construir um mundo aparentemente perfeito.
O mundo começa então a desmoronar, e Mahito foge com Natsuko e a Garça. Antes de partir, Himi retorna voluntariamente ao seu tempo, sabendo que um dia morrerá no incêndio que Mahito testemunhou. De volta à realidade, Mahito aceita sua nova família. Dois anos depois, ele retorna a Tóquio com seu pai, Natsuko e seu novo irmão, deixando para trás o mundo fantástico.
Direção de O Menino e a Garça
A mente à frente do filme O Menino e a Garça é Hayao Miyazaki, um dos diretores mais conceituados da indústria cinematográfica, sobretudo com relação a animação. Miyazaki já dirigiu diversos sucessos como por exemplo, Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke, O Castelo Animado, entre muitos outros filmes.
Grande parte da animação foi desenhada quadro a quadro pelos animadores. Miyazaki trabalhou diretamente nos desenhos e storyboards, como costuma fazer em seus filmes. A produção desta animação durou longos sete anos para ser concluída.O Menino e a Garça não foi animado com uma taxa fixa de 24 desenhos por segundo em todas as cenas.
Como é tradicional em animação 2D, o filme utiliza principalmente animação “em dois” (on twos): um desenho é mantido por 2 quadros, resultando em aproximadamente 12 desenhos por segundo, embora algumas cenas tenham animação em um (on ones), com um desenho diferente a cada quadro.
Vale ressaltar que esse filme levou mais tempo para ser concluído por conta da idade de Hayao Miyazaki que. A melhor é uma reportagem do The Independent, que entrevistou Junichi Nishioka, vice-presidente do Studio Ghibli. Ela afirma que O Menino e a Garça levou três a quatro vezes mais tempo para ser produzido que os trabalhos anteriores de Miyazaki. A reportagem relaciona isso, em parte, à idade avançada do diretor: Nishioka explica que sua capacidade de concentração havia diminuído e que ele precisou delegar mais tarefas aos colaboradores. .
A Garça parece representar parte do trauma de Mahito, tornando-se cada vez mais grotesca conforme ele se aproxima de seu passado e da perda da mãe. Essa mistura de fantasia e conflito psicológico transforma o filme em uma experiência única, mostrando como a direção de Hayao Miyazaki foi simplesmente extraordinária.
Em que foi baseado O Menino e a Garça?
O Menino e a Garça foi inspirado no livro How Do You Live?, de Genzaburō Yoshino, mas não é uma adaptação da obra. Miyazaki utilizou principalmente o título e a questão filosófica central do livro como ponto de partida para criar uma história original.
O livro acompanha Copper, um garoto de 15 anos que vive em Tóquio, que perde seu pai, e começa a questionar o mundo ao seu redor. Após vivenciar situações que despertam reflexões sobre amizade, desigualdade, conhecimento e responsabilidade, ele conversa com seu tio, que o ajuda a compreender essas experiências. Ao amadurecer, Copper percebe que conhecer o mundo não basta: é preciso escolher que tipo de pessoa deseja ser e como pretende viver.
Embora as duas obras contem histórias muito diferentes, ambas compartilham a mesma pergunta fundamental: como devemos viver? Miyazaki transformou essa reflexão em uma jornada sobre luto, amadurecimento e aceitação, criando uma obra que dialoga com o livro sem deixar de ser profundamente autoral.
Crítica
A recepção crítica de O Menino e a Garça foi extremamente positiva, embora alguns críticos tenham apontado que sua narrativa é mais difícil de acompanhar do que a de outros filmes de Miyazaki. No Rotten Tomatoes, o filme atualmente possui 88% de aprovação da grande audiência, com mais de 1000 avaliações. O consenso dos críticos destaca a combinação entre os temas filosóficos e a beleza da animação, classificando-o como mais uma obra-prima de Miyazaki.
Por exemplo, um dos destaques mais interessantes vem de Brian Tallerico, crítico e editor-chefe do RogerEbert.com. Ele considerou o filme uma espécie de síntese da carreira de Miyazaki e escreveu que a obra funciona simultaneamente como “a child’s heroic journey and an old man’s wistful goodbye”, uma jornada heroica infantil e uma despedida melancólica de um homem idoso.
No IMDB, essa animação alcançou 7.3/10 estrelas em uma escala com 150 mil avaliações. Dessa forma, apesar de sua narrativa mais enigmática e de exigir maior atenção do espectador, O Menino e a Garça foi amplamente reconhecido por sua riqueza visual, profundidade temática e caráter pessoal. A combinação entre fantasia, luto e amadurecimento consolidou o filme como uma obra marcante na trajetória de Hayao Miyazaki e do Studio Ghibli.
Orçamento e bilheteria
O Menino e a Garça desbancou o filme Pokémon 2000 nos Estados Unidos e Canadá, mostrando grande potencial já nos primeiros dias de estreia. Claro. O desempenho comercial de O Menino e a Garça foi bastante expressivo, especialmente considerando que se trata de uma animação autoral japonesa, lançada inicialmente sem praticamente nenhuma campanha tradicional de divulgação.
Atualmente, o filme soma cerca de US$ 290 milhões mundialmente, segundo o Box Office Mojo, sendo aproximadamente US$ 47,3 milhões na América do Norte e US$ 242,5 milhões nos demais mercados. O orçamento de O Menino e a Garça não foi divulgado oficialmente pelo Studio Ghibli, mas algumas estimativas, como a da plataforma especializada Saturation.io, apontam para cerca de US$ 50 milhões.
O Menino e a Garça estreou mundialmente em um mês bem concorrido, dezembro de 2023. Nesse mesmo mês filmes como Aquaman: O Reino Perdido, Wonka e Patos, entraram em cartaz. Além disso, grandes blockbusters como Jogos Vorazes: A Cantiga dos Pássaros e das Serpentes também estavam em cartaz.
Diante desse cenário, o desempenho de O Menino e a Garça foi ainda mais significativo. Mesmo enfrentando uma forte concorrência e contando com uma divulgação pouco convencional, o filme conquistou o público internacional e alcançou uma bilheteria expressiva, consolidando-se como um dos maiores sucessos comerciais da história do Studio Ghibli.
Como vão ser os filmes da Ghibli futuramente?
Hayao Miyazaki dava indícios de sua aposentadoria há bastante tempo. Mas, o anúncio só veio em setembro de 2013, depois de “Vida ao Vento” ter sido concluído e lançado no Japão. Na época, o presidente do Studio Ghibli, Koji Hoshino, anunciou em Veneza que “Vidas ao Vento” seria o último longa de Miyazaki. Poucos dias depois, o próprio diretor confirmou sua aposentadoria em uma coletiva em Tóquio.
Depois que o cineasta retornou com O Menino e a Garça, o próprio Studio Ghibli apresentou o novo filme como sendo “realmente seu último filme por sua idade”. Se Miazaki se aposentou definitivamente, o caminho mais provável é o Studio Ghibli depender, artisticamente, mais de outros diretores e animadores da própria casa, como já aconteceu em diferentes momentos. O estúdio já produziu filmes sem Miyazaki, como O Conto da Princesa Kaguya, de Isao Takahata, O Mundo dos Pequeninos, de Hiromasa Yonebayashi, e As Memórias de Marnie, também de Yonebayashi.
O problema é que não existe hoje um sucessor óbvio de Miyazaki com exatamente o mesmo peso artístico e comercial. Por outro lado, especulações apontam que o diretor ainda está trabalhando no Estúdio, dando respaldo criativo e técnico.
No âmbito comercial, o Studio Ghibli continuará sendo uma das marcas mais importantes da animação mundial. Entretanto, a saída definitiva de Miyazaki pode trazer uma transição artística e influenciar o desempenho dos próximos filmes. Por isso, “incerteza” talvez seja uma das palavras que melhor definem o futuro do estúdio.
Trilha sonora de O Menino e a Garça
A trilha sonora de O Menino e a Garça foi composta por Joe Hisaishi, o compositor que mais contribuiu, musicalmente, para os filmes da Ghibli. Hisaishi compôs álbuns para Meu Amigo Totoro, Os Serviços de Entregas da Kiki, O Castelo Animado, entre muitas outras animações desse estúdio. Hisaishi compôs a trilha, mantendo sua parceria com Miyazaki desde Nausicaä do Vale do Vento (1984). O álbum oficial foi lançado em agosto de 2023 e reúne 37 faixas.
Se você quer destacar a principal faixa instrumental da trilha. Ela é particularmente importante porque aparece três vezes no filme, em versões diferentes: Evacuation, Mother’s Message e Mahito’s Commitment. A melodia vai ganhando força conforme a jornada de Mahito avança. Hisaishi usa o piano de forma delicada, fazendo a melodia acompanhar o luto, a saudade e, por fim, a aceitação de Mahito.
A trilha de Joe Hisaishi para O Menino e a Garça ganhou alguns prêmios importantes. O principal destaque foi o International Film Music Critics Award (IFMCA) de 2024, no qual Hisaishi venceu como Melhor Trilha Sonora Original para um Filme de Animação. Além disso, esse álbum foi indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro nas cerimônias de 2024.
Assim, a trilha sonora de O Menino e a Garça representa mais um capítulo marcante da longa parceria entre Joe Hisaishi e Hayao Miyazaki. Com melodias delicadas e profundamente emocionais, Hisaishi acompanha a jornada de Mahito e reforça os sentimentos de luto, saudade e amadurecimento, contribuindo para a força emocional e artística do filme.
Conclusão
Apesar de o Studio Ghibli produzir filmes há décadas, ao assistir a O Menino e a Garça, não tive a sensação de estar vendo mais do mesmo. De alguma forma, Hayao Miyazaki continua conseguindo criar histórias fora do padrão, preservando a identidade visual do estúdio e a qualidade de suas narrativas.
Assim, O Menino e a Garça demonstra que, mesmo após décadas de carreira, Hayao Miyazaki ainda é capaz de surpreender. Ao unir uma narrativa incomum, personagens simbólicos e uma animação cuidadosamente construída, o diretor entrega uma obra que preserva a essência do Studio Ghibli, mas continua encontrando novas formas de contar histórias. Até a próxima!

















