Análise | Backrooms: Um Não Lugar

Backrooms: Um Não Lugar
Backrooms: Um Não Lugar/Trazer - Imagem: Backrooms Rights LLC, PC Films

A história de Backrooms: Um Não Lugar, começa quando uma estranha abertura surge no porão de uma loja de móveis, levando a um espaço que parece existir além dos limites da realidade. O arquiteto Clark se envolve com o fenômeno enquanto tenta investigar uma série de falhas inexplicáveis de energia. Ao atravessar a passagem, ele encontra um enorme labirinto de corredores e ambientes aparentemente intermináveis, onde as leis normais do espaço parecem não funcionar.

O que inicialmente parece ser apenas um fenômeno inexplicável logo revela-se muito mais perigoso. Preso em uma dimensão desconhecida, Clark precisa encontrar uma maneira de retornar ao mundo real enquanto tenta compreender a natureza daquele lugar e das criaturas que o habitam. A experiência começa a afetar sua percepção da realidade, tornando cada vez mais difícil distinguir o que é concreto daquilo que pertence às Backrooms.

Paralelamente, Mary, uma terapeuta, acaba envolvida no mistério depois que um de seus pacientes desaparece nessa dimensão. Determinada a encontrá-lo, ela precisa entrar nas Backrooms e enfrentar um ambiente que parece não possuir limites. Conforme avança pelo labirinto, Mary descobre que o local não é simplesmente um espaço vazio e abandonado, mas um território com suas próprias ameaças e regras.

A busca pelos desaparecidos conduz os personagens cada vez mais fundo nesse mundo impossível, enquanto as fronteiras entre realidade e dimensão sobrenatural começam a desaparecer. Entre corredores repetitivos, espaços gigantescos e encontros com criaturas desconhecidas, Backrooms acompanha a luta de seus protagonistas para sobreviver e encontrar uma saída de um lugar, criado para não permitir que ninguém escape.

Direção Backrooms: Um Não Lugar

Kane Parsons esteve a frente de Backrooms como diretor. Antes de prosseguir, vale ressaltar que o cineasta não dirigiu nenhum outro filme antes de Backrooms, dando ainda mais peso às decisões criativas das quais iremos falar. 

Parsons mantém no filme uma característica central de sua série: transformar o espaço em instrumento de terror. Em vez de depender constantemente de sustos, a direção explora corredores repetitivos, ambientes impossíveis, iluminação fluorescente e uma sensação permanente de desorientação. O diretor ainda operou bastante pelo uso de enquadramentos em POV, segmentos filmados como VHS e uma perseguição final que transforma um espaço enorme em algo claustrofóbico. 

A construção física dos cenários também foi fundamental para sua direção. Segundo a Vanity Fair, foram construídos cerca de 30 mil pés quadrados de corredores para a produção, permitindo que Parsons e os atores efetivamente percorressem aquele labirinto. O projeto visual partiu inclusive dos ambientes que ele havia criado digitalmente em Blender para seus vídeos.

A direção de Kane Parsons também aposta na repetição e na ausência. Os corredores, salas e estruturas das Backrooms são deliberadamente minimalistas, e durante uma parte considerável do filme a ameaça permanece apenas sugerida. Isso ajuda a criar estranhamento e expectativa, mas também produz o efeito contrário: a sensação de que a narrativa está demorando demais para avançar. Por isso, foi até um pouco difícil assistir o filme até o fim.

Kane Parsons demonstra em Backrooms que a atmosfera construída em seus trabalhos para a internet pode ser transportada para o cinema, utilizando a arquitetura, a repetição e o isolamento como elementos fundamentais para criar tensão. Dessa maneira, o filme representa uma estreia significativa para Parsons, que amplia uma ideia originalmente concebida na internet para uma produção cinematográfica de maior escala.

Em que foi baseado Backrooms: Um Não Lugar

Há vários textos publicados na Prodigital Pop, sobre filmes de todo tipo. Por exemplo, já mostramos filmes que foram baseados em HQs, os que foram baseados em fatos reais e os que foram baseados em curtas metragens, mas a origem de Backrooms: Um Não Lugar, é diferente de tudo que já foi falado até agora.

A ideia original surgiu em 2019, no fórum 4chan, quando um usuário anônimo publicou uma fotografia de um ambiente interno vazio, com paredes amareladas, carpete e iluminação fluorescente. Ou seja, Backrooms surgiu como um conceito, a partir de uma imagem.

A imagem passou a ser associada à ideia de um espaço aparentemente comum, mas inquietante, localizado fora da realidade convencional. Uma resposta à publicação ajudou a estabelecer o conceito das “Backrooms”, que posteriormente se transformou em uma creepypasta colaborativa. 

O filme de 2026, porém, é baseado principalmente na interpretação criada por Kane Parsons, conhecido na internet como Kane Pixels. Em janeiro de 2022, então com apenas 16 anos, Parsons publicou no YouTube The Backrooms (Found Footage), um curta de aproximadamente nove minutos que expandia a ideia original para uma narrativa própria.

Crítica

A recepção crítica de Backrooms foi majoritariamente positiva, mas não unânime. Atualmente, o filme aparece com 87% de aprovação no Rotten Tomatoes, enquanto o público está em 74%, indicando uma diferença perceptível entre a avaliação dos críticos e a reação dos espectadores. O consenso do site destaca a estreia de Kane Parsons como diretor e sua capacidade de transformar os espaços liminares da internet em uma experiência de terror atmosférica. 

Entre os elogios, aparecem principalmente a atmosfera, o design de produção, o trabalho de som e a capacidade de Parsons de criar tensão sem depender constantemente de sustos convencionais. O RogerEbert.com, por exemplo, destacou a linguagem visual do filme e as atuações de Chiwetel Ejiofor e Renate Reinsve. A cobertura inicial do Rotten Tomatoes também reuniu críticas que apontaram a construção da atmosfera e algumas sequências específicas como pontos fortes.

Por outro lado, o roteiro e o ritmo foram pontos de divergência. O TheWrap considerou o design de produção excepcional, mas criticou a história e o desenvolvimento psicológico dos personagens. Outras críticas também observaram que a expansão da mitologia e algumas explicações acabam reduzindo parte do mistério que funcionava tão bem na série de vídeos de Parsons. Assim, podemos concluir que Backrooms cumpre a proposta de terror psicológico, que apesar de ser uma obra bem inchada, conquistou a maior parte do público que alcançou.

Orçamento e bilheteria 

O custo para produzir Backrooms: Um Não Lugar está estimado em US$ 10 milhões, um valor baixíssimo comparados aos padrões cinematográficos da atualidade. Vale ressaltar que a A24 possui um histórico de filmes com custos de produção bem modestos, como por exemplo “O Farol” (US$ 11 milhões) e “A Bruxa” (US$ 4 milhões). 

Backrooms teve um desempenho extraordinário nas bilheterias. A abertura também foi gigantesca para um filme da A24: os US$ 81,4 milhões nos EUA fizeram de Backrooms um dos maiores lançamentos da história da distribuidora. A Associated Press registrou ainda que o filme arrecadou cerca de US$ 118 milhões mundialmente já no primeiro fim de semana, demonstrando o tamanho do interesse provocado pela produção. No total, essa adaptação arrecadou US$ 400 milhões nas bilheterias mundiais. 

se tornando um dos melhores desempenhos comerciais de 2026, ficando atrás só de Obsessão. O resultado também reforça a capacidade da A24 de encontrar oportunidades comerciais em projetos de terror com propostas originais, mostrando que não é necessário contar com orçamentos gigantescos para conquistar o público e alcançar cifras expressivas nos cinemas. 

Trilha sonora de Backrooms: Um Não Lugar

A trilha sonora de Backrooms: Um Não Lugar, composta por Kane Parsons juntamente com Edo Ven Breemen, é um dos elementos que mais contribui para a tensão psicológica do filme. A trilha sonora se destaca por ter sons com frequência aguda inquietante. O álbum original possui 27 faixas músicas que acompanham as cenas ao longo de todo o filme.

A música combina elementos eletrônicos e sonoridades atmosféricas para acompanhar a exploração dos ambientes labirínticos e reforçar a sensação de estranhamento e suspense. Por exemplo, a faixa Local Network, que integra a trilha sonora original e contribui para a identidade sonora inquietante da produção. 

A trilha também inclui canções licenciadas de outros artistas, entre elas Ulterior Motives, de Who’s Who?, e Eyes of a Stranger, do Payolas. A trilha sonora de Backrooms: Um Não Lugar pode ser analisada justamente pela maneira como o som contribui para criar tensão e preparar o espectador para os sustos bruscos, conhecidos como jump scares. 

A combinação desses recursos com os ambientes labirínticos reforça a sensação de perigo e contribui para tornar a experiência ainda mais desconfortável, demonstrando como o som pode ser tão importante quanto as imagens na construção do suspense cinematográfico. 

Conclusão

Backrooms: Um Não Lugar foi um dos grandes destaques comerciais de 2026, não necessariamente por ter alcançado a maior bilheteria do ano, mas por demonstrar o potencial de histórias inspiradas em creepypastas e fenômenos da internet. Em outras palavras, conceitos originais estão ganhando espaço na indústria cinematográfica e colocando em discussão a ideia de que apenas superproduções, franquias consagradas e personagens conhecidos conseguem atrair o público para as salas de cinema.

Se essa perspectiva se consolidar como uma tendência, os próximos anos poderão trazer obras cada vez mais criativas, com propostas visuais ousadas e narrativas que explorem caminhos pouco convencionais. Histórias que antes circulavam apenas em fóruns, vídeos e comunidades virtuais poderão encontrar no cinema uma oportunidade de alcançar novos públicos, especialmente quando apresentarem ideias capazes de despertar curiosidade e estimular a imaginação

Ainda é cedo para afirmar que essa mudança redefinirá a indústria cinematográfica, mas o interesse por histórias nascidas na internet mostra que existe espaço para diferentes formas de criação. Talvez o futuro do cinema não dependa apenas de ampliar universos já conhecidos, mas também de descobrir novas ideias em lugares inesperados. Até a próxima!

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